SobreSites > Alex Castro > Artigos > Crônicas > Eu, o Oliver e a Katrina - O Furacão que Assolou Nova Orleans
>
Página Inicial
Quem Sou Eu
As Prisões
Ficção:
Mulher de Um Homem Só
Onde Perdemos Tudo
Liberal Libertário Libertino
Dinheiro
Artigos:
Literatura
Crônicas
Acadêmicos
Internet
Comportamento
Guerra do Paraguai
Taras
Colunas
Fotolog
Podcasts
Lista de Presentes
Termos de Uso
Banners
Leituras
Links
Fale com o Autor
  Alex Castro
Editor do seu Guia de Blog na Internet
Eu, o Oliver e a Katrina - O Furacão que Assolou Nova Orleans

Sábado, 27 de Agosto de 2005

Katrina

Mais uma mulher má, quente e incontrolável na minha vida. Talvez a última.

A cidade está sendo evacuada. Eu não conheço ninguém e não tenho carro. Uma amiga disse: don't worry, you're a part of Tulane now, they'll take care of you. Pois a única ajuda que Tulane está me dando é o seguinte aviso no site: "Everyone should begin implementing their personal hurricane plan now." In other words, you're on your own, good luck.

O dia está lindo, ensolarado e calmo. O furacão deve bater aqui na segunda, ao meio-dia. O storm surge, a onda que vem depois do furacão, deve passar de seis metros. Como a cidade fica entre um rio e um lago, espera-se que ela seja simplesmente lavada do mapa - ela e quem ficar por aqui. Minha velhíssima casa não me parece capaz de suportar uma muralha d'água de seis metros mas enfim.

Eu me sinto em uma daquelas narrativas militares de antigamente, quando avisavam a uma cidade murada que os hunos estavam a dois dias de distância. E todo mundo ia escrever seus testamentos e put their affairs in order.

Ainda não sei bem o que vou fazer. Muito provavelmente, me trancar em casa, hope for the best, talvez morrer.

Mauro, vai postando umas confissões aí até eu voltar.

Na melhor das hipóteses, só vou ter internet de novo na quarta, quando a universidade reabrir.

Na pior, bem, sinceramente, vai ou não vai dar um puta release? Publicação póstuma do primeiro romance inédito do blogueiro que saiu do Brasil pra ir pra Nova Orleans e morreu na primeira semana. Porra, se isso não fizer o livro vender, fudeu. E ainda dá pra empurrar o livro de contos, um livro das prisões, um livro das confissões e uma coletânea geral do blog. Sorte da ex que vai ficar rica.

Hmmm, se não fossem as três mulheres pelas quais estou apaixonado, eu até encararia esse furação de peito aberto. (Vocês sabem quem são e eu amo vocês.) Também, claro, beijo pro meu pai, pra minha mãe, pra minha irmã e pra você, Xuxa.

Em suma, that's all, folks. Nada do que eu disse é brincadeira. Acompanhem o noticiário e torçam por mim.

UPDATE

Acabei de vir de uma reunião do Presidente da universidade com os pais. Esse furacão não poderia ter acontecido em pior hora. Estamos em pleno orientation week, as aulas começariam da quarta, o campus está cheio de alunos se mudando, de pais que vieram trazer os filhos, essas coisas. Já ouvi mais de um: "Oh, why didn't I go to fucking Brown?!" O pior, claro, é que esses milhares de novos alunos acabaram de chegar na cidade, não conhecem ninguém, ainda não têm celular, telefone ou internet em casa (eu, eu, eu.) Ou seja, estão completamente indefesos.

Minha casa é muito frágil, realmente não dá pra ficar lá. Tulane vai disponibilizar vários ônibus, que sairão do campus hoje às 5 horas (daqui a 3 horas e meia) para levar os alunos para a University of Mississipi at Jackson, onde o pessoal vai ficar em abrigos improvisados.

Eu pretendo estar em um desses ônibus. Acho que vai ser, no mínimo, uma história interessante pra contar, além de um bonding experience.

O Oliver, naturalmente, infelizmente, não pode ir. Vou ter que deixá-lo em casa, com muita água e comida, e torcer pelo melhor. O roomante e a namorada vão dirigir até Houston com o labrador deles, 350 milhas, eu poderia pedir para ir com eles, ou pelo menos, para o Oliver ir com eles, mas ninguém ofereceu, então, melhor me virar sozinho.

Vocês agora me dão licença, vou correr pra casa, arrumar as coisas do Oliver, fazer a mala e tentar estar de volta aqui no campus às 4. Prevejo caos e confusão. Espero ter que usar toda minha brasilidade.

Estou levando Ulysses, do Joyce. Acho que dessa vez, eu leio essa joça.

UPDATE II

Sao 5 da tarde, estou no centro esportivo de Tulane, em um comp publico sem teclado brasileiro. O centro esportivo eh de onde os onibus da evacuacao vai sair e tb funcionarah como um abrigo de emergencia durante o furacao. Enquanto esperamos os onibus, vimos dezenas de funcionarios entrarem trazendo comida e sacos de areia. Estou tirando fotos, nao sei quando vcs as verao.

Civilizacao eh uma coisa linda. Alem das filas nos supermercados e nos postos de gasolina, alem das lojas barricando as vitrines com madeira, em cada rua voce ve cidadaos normais limpando as saidas dos bueiros e recolhendos as folhas e o lixo da rua. Cada um fazendo sua parte pra evitar uma inundacao do seu quintal. Realmente, a sensacao eh de estar em um daqueles filmes de guerra em que vc sabe que o inimigo chegarah em poucas horas e gasta todo seu tempo se preparando pra ele.

Todo mundo lembrou de trazer travesseiro e cobertor, menos o idiota aqui. Como bom brasileiro, pensei no meu banho e trouxe toalhas e produtos de higiene, e pensei nas minhas leituras, e trouxe Ulysses. Mas nao lembrei que teria que dormir.

Fui um dos primeiros a chegar, jah me registrei e estarei no primeiro onibus que sairah de Tulane.

A TV ligada no noticiario, ao meu lado, soh dah mas noticias. Varios fatores meteorologicos contribuem para fazer com que o furacao aumente de intensidade no caminho pra cah, ao inves de diminuir como aconteceu em outras vezes. Tomara que meu filho fique bem.

Vou sair agora pq tem uma japonesa na fila atras de mim.

UPDATE III

Enquanto o onibus nao sai, eu fico aqui falando com vcs. Sao 5:40.

Lembrem-se que estamos em orientation week, a primeira semana do ano letivo, e muitos pais de calouros vieram trazer pessoalmente seus pimpolhos para a primeira separacao da familia. E que separacao traumatica e emocionante! Muitos pais estao pedindo para irem junto com os filhos, muitos filhos estao pedindo para irem junto com os pais, mas nao tem jeito. Nos onibus de Tulane, soh alunos e funcionarios.

Entreouvido no celular: Jeff, you have no idea! I bet I'm having a much more exciting orientation week than you!

Alias, nao sei como esse povo consegue. Estah todo mundo aqui no hall falando no celular. Deve ser pra fora do estado. Nao consegui falar com nenhum dos tres numeros de celular locais para os quais liguei. A rede, obvio, estah congestionada. Em Set.11, eu tb tentei ligar pra minhas amigas em NY e soh consegui get through as 4 da tarde.

Ultima nota: que deus me ajude, mas quanta mulher bonita, na flor da idade, de havaianas, anel de dedo do peh, tornozeleira, pezinho feito, pedicure francesinha, esmaltes de todas as cores, incluindo dourado, prateado, azul, verde, ui, que delicia.

Agora nao tem mais fila, mas tb nao tenho mais nada a dizer. Entao, tchau.

UPDATE IV

A Cruz Vermelha preve que, se a cidade nao for evacuada e for de fato atingida por um furacao, as mortes podem chegar a 100 mil. Bota gente nisso.

Jah me perguntaram se nao estou levando tudo muito bem. Olha, os proximos quatro dias vao ser, no minimo, desconfortaveis e estou sim muito preocupado com o Oliver. Mas jah q o estupro eh inevitavel, o jeito eh pelo menos aproveitar pra observar a natureza humana e cacar boas historias.

Meu lema eh o seguinte: o que nao mata, sempre rende boas historias. O que mata, entao, rende excelentes historias.

UPDATE V

Essa porra desse onibus nao sai. Jah sao 6:20.

Pela TV, a evacuacao estah indo muito bem, todas as autoestradas estao andando, nada de caos em nenhum ponto da cidade, nem engarrafamento.

Mas tambem, em parte, eh porque as ultimas duas evacuacoes foram a toa. Fizeram o mesmo drama que fizeram agora, todo mundo evacuou, deram problemas terriveis nas estradas, e nada de furacao. Mudou de direcao na ultima hora.

Entao, muitos nativos simplesmente teimaram que dessa vez nao vao sair. O estado jah gritou lobo vezes demais. Foda-se. They will ride it out.

Good luck to us all.

UPDATE VI

Sao 5 e meia da manha, estou no ginasio da Jackson State University, no Mississipi, em um computador emprestado. Por aqui, tudo bem, mas nao vou abusar escrevendo muito, depois faco um relatorio mais detalhado. Estou tirando fotos.

Domingo, 28 de Agosto de 2005

De Jackson, Mississipi a Detroit, Michigan

Sao 9 da noite de domingo e muita coisa aconteceu desde que postei pela ultima vez, 16h atras - parece que faz 3 dias.

Abandonei o abrigo na Jackson State University, em Jackson, Mississipi. Gosto de estar on my own. Depois de ficar micado por um bom tempo no aerporto de Jackson, com o furacao se aproximando e ameacando fechar o aeroporto e me deixar lah micado de vez (foi por pouco), consegui um last minute seat num voo pra Detroit.

Last minute mesmo, tive que pegar o aviao na pista e sentei numa das cadeiras pra tripulacao. Estou agora em um cibercafe do aeroporto de Detroit, que pelo menos eh um aeroporto de verdade, e nao aquela pseudo rodoviaria que era o aeroporto de Jackson.

Amanha de manha, pego um voo pra NY, para ficar na casa de uma amiga querida que me convidou e ainda pagou minha passagem.

As historias que tenho pra contar pra voces estao se acumulando. Gosto de saber que, enquanto eu pulo de cidade em cidade com a katrina atras de mim, voces acompanham minha vida como se fosse uma novela. Gosto de estar sozinho mas vcs nunca deixam eu me sentir 100% sozinho. Quando chegar na casa da minha amiga, em NY, vou ter mais sossego pra contar as historias todas. Juro.

Por enquanto, continuem pensando no Oliver pq eu tb soh penso nele, e estou muito preocupado. Mas ele eh um cachorro de rua, da favela, confio no seu instinto de sobrevivencia.

The worst-case scenarios preveem que a vida soh se normalizaria em Nola em seis meses! Eh incrivel como nessas duas semanas eu jah tinha enfiado Nola no meu coracao como minha nova casa. Imaginar ela sendo destruida soh nao eh pior do que imaginar esse furacao batendo no Rio. Ateh o site de Tulane jah estah fora do ar. Serah que isso tudo foi olho grande dos invejosos?

Tenho que ir, porque a internet aqui eh 20 dolares a hora.

Segunda, 29 de Agosto de 2005

Oliver

Sao 6 da manha e ainda estou em detroit. Nao acredito que faz soh 48 horas que eu estava dormindo pacificamente, pensando que sabado ia ser o dia do oliver. Meu roomate ia passar remedio contra pulgas na casa e eu e o oliver iriamos ficar na rua o dia todo. Eu ia levar ele pra conhecer o levy e tulane. Ao inves disso, foi o dia em que eu o abandonei.

Nao consigo me perdoar. Acabei de passar minha segunda noite de refugiado, dormindo no chao em um aeroporto deserto (tirei fotos), e passando um frio fudido. Nao trouxe casaco, pq estava fazendo quase 40c em Nola. Acho engracado imaginar que saih de casa sem conceber que iria acabar em NY.

A principio, fiquei colado nos teloes da CNN vendo noticias sobre katrina e, finalmente, desabei, e chorei muito pelo meu filho, sem acreditar que trouxe ele pra morrer nessa terra, e pensando em todo o carinho e em todo o trabalho que ele me deu nessas duas semanas pra se estabelecer em Nola. Cara, como chorei. Devem ter achado que eu era o mais apaixonado New Orlenian. Depois, tentei fugir dos teloes, nao estava mais aguentando chorar tanto, mas esse aeroporto maldito tem teloes ligados na CNN a cada 10m. Nao deu pra fugir. Felizmente, foram todos desligados a meia-noite.

Uma ultima coisa: eu sei que sou interesseiro, mas quando vc estah sozinho, refugee, on the road, tem que usar all the help you can possibly get. Entao, faco questao de dizer pra todo mundo que sou um evacuee de New Orleans, e isso ganha a simpatia/empatia imediata das pessoas, elas se viram ao avesso pra tentar ajudar. Quando eu falo do cachorro, entao.

Soh faco pensar no Oliver. Tomara que a ex consiga me perdoar por deixa-lo lah. Tomara que eu consiga me perdoar.

Mas para os que achavam que dava, nao dava. Nos onibus de tulane, ele nao iria. Tinham familias sendo separadas as lagrimas e ninguem pode fazer nada. Voos out of new orleans, no way, nao tinha mais nenhum. Carro, eu nao tinha. O que eu nao fiz foi ver se algum dos vizinhos ficaria na cidade e dar a chave da casa pra ele. Mas nao tive tempo. Tive que evacuar em menos de uma hora.

Meu consolo eh que se a casa estiver de peh, ele vai ficar bem.

PS: Ulysses nao dah. Joyce estava de sacanagem. Estou lendo Decline and Fall, do Gibbon, que eu tb trouxe, meu segundo livro favorito depois da Biblia.

New York

Jah estou instalado em NY. Os estragos em New Orleans parecem que foram menores do que poderiam ser. Pode ser que de pra eu voltar no fim de semana. Seria minha prioridade. Tenho historias pra contar. Mas antes vou tomar banho, trocar de roupa, tirar um cochilo, essas coisas.

Daqui a pouco, eu volto.

Terça, 30 de Agosto de 2005

Dicas de Refugiado

Caso voces algum dia precisem abandonar suas casas e ficar em um abrigo para refugiados, por favor, aceitem a sabedoria acumulada desse que vos fala.

Don't wear white underwear.

Take my word for it.

Perguntas

Liguei o MSN no cibercafé do aeroporto de Detroit e encontro uma amiga. Começo a contar pra ela minhas desventuras, evacuação de New Orleans, abrigo em Jackson, chegada em Detroit, etc, e ela pergunta:

Por causa do Katrina, né?

* * *

1943. A família Rosenberg consegue escapar de Berlim. Atravessam os alpes suiços a pé. Viajam clandestinos no porão de um navio cercado de ratos. Fazem todo o tipo de sacrifício.

Finalmente, chegam à América, exaustos, aliviados, vitoriosos. E alguém pergunta:

Por causa daquele Hitler, né?

Não, Pedro Bó, é porque não gostamos daquela comida gordurosa!

Quarta, 31 de Agosto de 2005

Arrival in New York


Segunda, Ago.29, K Day.

Enquanto o Katrina destruía minha cidade, cheguei em Nova Iorque literalmente morto, exausto, preocupado, depois de 52 estressantes horas on the road, de Nova Orleans, a Jackson, Mississippi, passando por Detroit, Michigan.

Shelter Identification Bracelet



Quando nos inscrevemos para o abrigo em Reilly, nos deram essa fitinha azul pra colocar no pulso. Ela nos identificaria como refugiados, tanto para entrar no ônibus quanto para comer no refeitório de Jackson State.

O pior é que dava meio que um ar de campo de concentração.

Jackson Airport


 

Tarde de domingo, Agosto 28, k minus 1. Foi nesse dia que descobrimos, pela TV, que as coisas seriam muito piores do que imaginávamos.

Eu estava desesperado pra sair de Jackson, pois o furacão iria passar por lá e meu vôo para NY era só na segunda de manhã, quando todos diziam que o aeroporto estaria fechado. Felizmente, consegui um lugar de última hora ainda na tarde de domingo.

Eu não era o único desesperado. O aeroporto estava com gente saindo pelo ladrão, todos os vôos estavam lotados, ninguém queria ficar stuck in Jackson, Mississippi.

Jackson State University Shelter



Calouros, alunos de pós e funcionários de Tulane abrigados no ginásio da Jackson State University, em Jackson, Mississippi.

Madrugada de domingo, Agosto 28, k minus 1. Foi nesse dia que descobrimos, pela TV, que as coisas seriam muito piores do que imaginávamos.

Jackson State University Shelter


 
Calouros, alunos de pós e funcionários de Tulane abrigados no ginásio da Jackson State University, em Jackson, Mississippi.

Madrugada de domingo, Agosto 28, k minus 1. Foi nesse dia que descobrimos, pela TV, que as coisas seriam muito piores do que imaginávamos.

Students Registering for the Shelter Buses at Reilly Center, at Tulane



O centro esportivo de Tulane, Reilly, foi onde os alunos se concentraram para entrar nos ônibus que iriam para o abrigo em Jackson State University. O Reilly também funcionou como abrigo mais tarde.

Na foto, os alunos se inscrevendo para os ônibus.

Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois dias.

Students Going into Reilly Center at Tulane to Register for Shelter Buses


 

O centro esportivo de Tulane, Reilly, foi onde os alunos se concentraram para entrar nos ônibus que iriam para o abrigo em Jackson State University. O Reilly também funcionou como abrigo mais tarde. Na foto, a galera entrando em massa.

Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois dias.

New Orlenians Clear Gutters in Preparation for the Storm


 

Civilização é outra coisa. Um pai e um filho, da esquina da Spruce (minha rua) com Carrollton, limpando os bueiros, em preparação para as inundações.

Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois dias.

Hurricane Preparations at Reilly While Food is Brought in For Refugees


 
O centro esportivo de Tulane, Reilly, foi onde os alunos se concentraram para entrar nos ônibus que iriam para o abrigo em Jackson State University. O Reilly também funcionou como abrigo mais tarde.

Na foto, enquanto funcionários terminam de preparar o Reilly para o furacão, outro funcionário traz água e comida para o abrigo.

Sábado, Agosto 27, K minus 2, o dia em que Nova Orleans acordou sabendo que os hunos estariam chegando em dois dias.

Freshmen Thinking They Would Move In


 
Caixotes dos calouros, ao lado de um dos dormitórios de Tulane, crentes que iriam se mudar, na véspera do anúncio do furacão.

Sexta, Agosto 26, K minus 3, o último dia em que New Orleans foi dormir achando que estava tudo bem.

Multi Ethnic Student Orientation


 
Achei essa placa bem típica de um típico orientation week de uma típica faculdade americana.

Sexta, Agosto 26, K minus 3, o último dia em que New Orleans foi dormir achando que estava tudo bem.

St Charles Streetcar


 
O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é do ponto em frente à entrada principal.

Ago.25, Katrina minus 4

St Charles Streetcar


 
O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é do ponto em frente à entrada principal.

Ago.25, Katrina minus 4

St Charles Streetcar


 
O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá). A foto é do ponto em frente à entrada principal.

Ago.25, Katrina minus 4

St Charles Streetcar 2


 

O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá).

Ago.25, Katrina minus 4

Tulane University Entrada Principal


 
Entrada principal de Tulane, na St Charles Av.

Ago.25, Katrina minus 4

St Charles Streetcar


 
O bonde que eu pego (pegava) pra ir de casa (se ainda existir) à universidade (se ainda estiver lá).

Ago.25, Katrina minus 4

Como Um Refugiado do Sudão

Finalmente, um santo leitor me mandou o texto da nota do Globo. Aqui vai:
Como um refugiado no Sudão

O carioca Alex Castro, de 31 anos, tinha chegada a Nova Orleans duas semanas antes da ordem de evacuação, sábado. Professor de literatura brasileira da Universidade de Tulane, viveu o drama de ser obrigado a deixar seu poodle, Oliver, para trás. "Fiquei sabendo que a universidade colocou ônibus à disposição de alunos e funcionários para que deixassem a cidade. Mas eram só eles. Estávamos nos dias que antecederiam o início das aulas, quarta-feira, e muitas pessoas tinham acabado de chegar à cidade, parentes tinham levado alunos para lá. Muitos falavam: 'meu pai pode ir? Meu irmão veio aqui só para me trazer e não tem como sair'. Não pude levar meu cachorro, Oliver. Não tenho carro, não conheço ninguém na cidade, não tinha um plano de evacuação, como todos lá têm. Quando tive que sair, deixei água e comida para uma semana para o Oliver. Pretendo voltar o mais rapidamente possível", disse Castro ao GLOBO.

O professor, que conta seu drama em seu blog http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com, ficou 48 horas "como um refugiado do Sudão", enquanto era levado para a universidade da cidade de Jackson. Depois pegou um avião para Detroit e, depois, para a casa de amigos em Nova York.

Pedidos

Estou bem mal. Mental e emocionalmente exausto. Agora é que está batendo a enormidade dessa porra. Mas tenho dois pedidos:

Parem de perguntar por notícias do bicho. Ele não fala, não escreve, não manda email, claro que não tenho notícias dele. Se tiver, eu aviso.

E, por favor, o mais importante, parem de vir me dizer que vai ficar tudo bem. Caralho, você não sabe isso, não tem nada o que você possa fazer, nem eu, é só uma frase vazia usada pra acalmar gente histérica, o que não é o meu caso - ainda. Se você quiser dizer que espera ou torce pra que tudo fique bem, eu aceito at face value e agradeço.

Mas eu confesso que me irrita muito essas pessoas que botam a mão no meu ombro e dizem, com uma certeza que não sei de onde veio, que vai ficar tudo bem.

I don't know that, neither do you. Em uma emergência, o que conforta é amizade, concern, companheirismo, não frases vazias.

Aliás, hoje saí no Globo, em um box que não aparece na versão online. Se alguém puder transcrever a notinha nos comentários aqui do blog, eu agradeço.

E muito obrigado a todos pelas muitas demonstrações de carinho, afeto, amor. Eu amo todos vocês. Mesmo os que me irritam com as frases vazias. Eu sei que é de coração.

Quinta, 1o de Setembro de 2005

Errata

Só pra esclarecer: eu nunca disse pro repórter do Globo que era professor em Tulane. Pelo contrário, deixei bem claro o que vocês estão cansados de saber, que sou estudante de pós-graduação e que parte das minhas obrigações é dar aulas, mas que ainda nem havia começado.

Se você acha que a imprensa nunca distorce nada em suas matérias, por favor, entre em contato comigo, eu tenho uma ponte baratinha pra vender.

Esperança para o Oliver

Finalmente, uma boa notícia.

Oliver de Sapatinho

Grupos de pet rescuers estão se preparando para ir a Nova Orleans, resgatar animais de estimação que ficaram presos em suas casas. Entrei em contato com o pessoal da Animal Rescue League of Boston, eles pegaram todos os dados do Oliver, já me ligaram pelo menos uma vez aqui em NY para confirmar detalhes, e disseram que estão coordenando com outros grupos, como o Noah's Wish, para dividir a cidade em áreas e cada grupo ficaria responsável por salvar os pets de uma região. Eles devem entrar na cidade hoje ou amanhã. Se minha casa ficou de pé e as portas não abriram com o furação, o Oliver ainda deve estar lá dentro, assustado e fraco, mas vivo.

Ainda há esperança.

* * *

Enquanto isso, deixo vocês com as duas mais recentes fotos do Oliver (não vou dizer últimas) tiradas na quinta, quatro dias antes do furacão.

Oliver de Sapatinho

Eu tenho andado mais de uma hora por dia com ele pelas ruas de Nova Orleans e, como ele não admite dormir no chão, minha cama estava ficando toda imunda. Decidi comprar esses sapatinhos para quando ele fosse andar na rua. Nos primeiros dias, ele demorou a se acostumar mas agora já está craque. As crianças da vizinhança adoram. Todo mundo deve ter certeza que eu sou gay, mas foda-se.

Eu amo muito o meu cachorro, fiz muitos sacrifícios pra trazê-los pros EUA e quero muito vê-lo de novo. Se ele voltar são e salvo, eu vou ser voluntário desses pet rescue groups. Podem cobrar.

* * *

Veja mais fotos do Oliver ou as outras fotos relacionadas à passagem do Katrina por Nova Orleans.

* * *

Continuo on the road. Hoje estou indo para Washington DC e, na semana que vem, assim que eu tiver notícias do Oliver, pra bem ou pra mal, vou pra Bay Area, na Califórnia.

UPDATE

A moça do Animal Rescue League of Boston acabou de ligar de novo, cinco minutos depois de eu fazer o post acima. Os dados do Oliver foram transferidos para o American Humane Association, que é quem vai tentar entrar na cidade para resgatá-lo. Infelizmente, o governo não está deixando ninguém entrar em New Orleans. Eles estão tentando, sabem que se demorar muito vai ser tarde demais, mas não podem prometer nada.

Sexta, 2 de Setembro de 2005

Liberdade de Expressão

Talvez eu esteja errado, mas entendo liberdade de expressão assim:

Todo mundo tem direito a sua própria opinião, inclusive sobre mim, inclusive sobre as coisas que fiz ou deixei de fazer. Levo isso tão a sério que abro os meus comentários a literalmente qualquer opinião. Podem falar. Podem mesmo.

Nem todo mundo, entretanto, tem direito à minha amizade e me dou o direito de excluir do meu círculo social pessoas que tenham certo tipo de opiniões sobre mim. É um direito que me dou, irrecorrível e tirânico, cujas regras são totalmente subjetivas e não precisam ser explicadas ou descritas.

É justo ou não é?

Porque eu agora não estou conseguindo pensar em nada, mal como, mal durmo, estou totalmente transtornado. Mas assim que essa situação do Oliver se resolver, seja ele voltando pra mim ou sendo encontrado morto, vai ter gente muito surpresa por eu não responder seus emails.

O Valor da Opinião dos Outros

Uma das melhores coisas de ter suas decisões pessoais analisadas e dissecadas por milhares de pessoas é que isso te ensina, in a sobering way, o valor real das opiniões dos outros: zero.

Às vezes, se a gente recebe só uma ou duas opiniões, ainda pode acabar se deixando levar por uma delas. Mas, quando são centenas, você percebe que simplesmente não dá pra seguir a opinião dos outros. Porque opinião, vocês sabem, é que nem cu: cada um tem a sua e é uma mais diferente que a outra.

Tem gente que disse que foi egoísmo levar o Oliver pros EUA - não entendi porque. Tem gente que disse que seria egoísmo deixá-lo pra trás só pra não encarar o trabalho que daria levá-lo. Etc etc. Teve gente até me criticando pelos posts do louco do Bia.

Reparem: não estou nem dizendo que essas opiniões não têm valor. Têm sim, e muito. Para quem as emitiu. Mas, para quem escuta, não dá pra tomar 518 opiniões conflitantes como guia de ação.

Pelo contrário, elas só nos fazem ver que, na vida, a gente tem mesmo é que fazer o que acha certo e arcar com as consequências. Porque depois, seja lá o que façamos, sempre vai ter gente pra achar bom e sempre vai ter gente pra achar ruim.

Notícias

Terei que sair de Nova Iorque antes do esperado, então não vou mais pra Washington. Pego um vôo amanhã e, a partir daí, estarei em Berkeley, Califórnia, na casa da minha irmã, até tudo se resolver.

O Idelber realmente é uma pessoa de coração de ouro. O blog dele se transformou em um centro de informações para refugiados e parentes de desaparecidos. Valeu, Idelba.

As condições em New Orleans estão se deteriorando cada vez mais e os animal rescuers não estão conseguindo obter permissão para entrar. Enquanto escrevo isso, o meu cachorro amado está morrendo de fome e sede e não tem nada que eu possa fazer.

Nunca me senti tão desgraçado, fudido, impotente, culpado. Se os merdas que comentam aqui acham que podem fazer eu me sentir pior do que já estou, estão muito enganados.

Sábado, 3 de Setembro de 2005

Berkeley, Califórnia

Estou em Berkeley, na casa da minha irmã. E, sim, era mesmo minha irmã comentando no blog e já pedi pra ela parar de expor e bater boca com idiotas.

Uma coisa interessante dessa crise é que muitos amigos e parentes que não conheciam o blog, ou então que conheciam e não liam, agora estão visitando obsessivamente atrás de notícias, e alguns até comentando.

Meu pai inclusive tachou esse blog de espaço de degenerados. E eu não pude nem discordar.

* * *

Depois de 40 graus em Nova Orleans e quase 30 em Nova Iorque, chego em Berkeley e está uma friaca desgraçada. Esqueceram de avisar pra esse povo aqui que estamos no verão.

* * *

Agora é oficial. Tulane cancelou o semestre letivo. As aulas só devem voltar em janeiro de 2006. Ou seja, cada um por si, deus por todos. Muitas outras universidades estão aceitando alunos de Tulane sem cobrar mensalidade, créditos serão aceitos, etc etc. Toda ajuda para as vítimas do Katrina.

O meu maior problema, como sempre, é grana. Cheguei até a receber o primeiro cheque de Tulane, mas isso é tudo o que tenho. Preciso de uma universidade que, além de fazer o acima, também me pague uma bolsa como Tulane pagava. Senão, não vou ter como me manter.

Eu sempre quis morar no Bay Area, o clima é agradável e as pessoas são interessantes, o departamento de Espanhol e Português de Berkeley é dos melhores dos Estados Unidos e minha irmã, o marido dela e o Idelber têm excelentes contatos aqui.

Minha melhor estratégia, no momento, é tentar me virar em Berkeley.

* * *

Eu gostaria de poder estar fazendo o que o Idelber faz. O homem é campeão. O blog dele continua sendo ponto de encontro para toda a comunidade latina de Nova Orleans, todas aquelas pessoas que eu conhecia de nome e agora sabe-se lá quando vou conhecer. Salvando vidas, dando dicas, democratizando a informação, criando emails, promovendo reencontros.

Chego a me sentir meio culpado de não estar fazendo tanto - mas eu não conhecia quase ninguém ainda e também estou refugiado.

Estou lutando pelo Oliver, que não tem mais ninguém para lutar por ele.

* * *

Recebo informações de que os pet rescuers já estão em Nova Orleans resgatando os animais de estimação. Espero ter mais notícias em breve. Parece que a lista deles já está com mais de dois mil bichinhos pra resgatar.

Também estou tentando entrar em contato com a Rede Globo. Eles estão com repórteres na cidade e poderiam resgatar o Oliver. Acho que daria uma boa reportagem. Tipo da coisa que neguinho ama pra encerrar o Jornal Hoje. É das minhas últimas chances.

Se alguém tem algum contato na Globo, por favor, ajude. Com urgência. O Oliver já está há uma semana trancado em casa. Se tudo deu certo e ele ainda está lá, vivo mas fraco (o cenário mais provável), o tempo dele está se acabando.

UPDATE

Falei com o pessoal da Globo em Nova York. Eles passaram as informações sobre o Oliver pra equipe em Nova Orleans, mas não prometeram nada, claro, a equipe ficará lá por muito pouco tempo e sua mobilidade é restrita, mas nunca se sabe. Quem souber rezar, pode rezar.

Chorando em Público

Eu me exponho muito. Gosto de fazer isso. Sou romancista. Meu maior prazer é entrar dentro das pessoas, sentir o que elas sentem, conhecê-las. E se expor é o melhor modo de fazer as outras pessoas se exporem também.

Quando eu escrevo sobre o meu choro e da minha dor, eu coloco você em uma situação complicada. Emoções fortes são sempre constrangedoras e algo ridículas. Pode ser alegria, pode ser tristeza. Mas você fica sem reação.

O que fazer? Você pára e diz uma palavra amiga? O quê? Será que não pode piorar? Será que você tem alguma coisa nova pra dizer? Não será melhor ficar calado e fingir que não viu? Mas não é omissão? Etc.

O modo como você, amigo leitor, reage às minhas palavras me diz tanto sobre você quanto meus posts lhe revelam sobre mim.

E existem as pessoas que vêem alguém chorando no meio-fio, páram... e dão um chute. Não preciso dizer quem são. As caixas de comentários estão aí pra isso. Elas até assinam.

Essas pessoas não me incomodam. Não me machucam. Não me irritam. Meus leitores antigos sabem que não me importo com essas coisas. Se me importasse, não me exporia tanto. Se me importasse com pessoas assim, imagina!, minha vida seria insuportável.

Quando estou bem, eu os desprezo estoicamente. Quando estou mal, bem, a dorzinha que seria a dorzinha do chute é tão pequena perto da dor que estou sentindo que também é digna de desprezo.

Mas, do ponto de visto do romancista, é fascinante. Quem são essa pessoas? Como se tornaram assim? Como se comportam com seus entes queridos? Será que têm alguém?

Que tipo de gente vê alguém fragilizado, chorando sozinho, e sua primeira reação é ir lá e chutar, xingar, falar um desaforo?

Olho pra cima, por entre as lágrimas, para quem me chuta quando estou vulnerável e só o que vejo são pessoas dignas de pena.

Muito mais pena do que eu, que estou aqui chorando no meio-fio.

* * *

A internet definitivamente facilita a interação.

Hoje, chorando em público na internet, muita gente veio sentar ao meu lado e falar comigo. Uns pra ajudar, outros pra machucar.

Mas todas pessoas que simplesmente não conseguiram ficar imunes, que não conseguiram passar e virar o resto, pessoas às quais a minha ação forçou uma reação.

E, nessa reação, revelaram suas verdadeiras personalidades.

* * *

A questão de se expor para forçar os outros a se exporem também está desenvolvida na Prisão Conformismo.

Domingo, 4 de Setembro de 2005

Um Mês Antes do Furacão

Fiz o post abaixo no dia 29 de julho, um mês antes do Katrina bater em New Orleans:

The University of New Orleans Survey Research Center and the Southeast Louisiana Hurricane Task Force found that a major hurricane, with 130 mph winds and an 18-foot-high storm surge, would not scare 60 percent of southeast Louisiana residents.

"In 2002, an American Red Cross estimate found 25,000 to 100,000 people would be killed if a major hurricane hit the New Orleans area."

With an above-normal 2005 hurricane season predicted and over four months left, will you become an I-10-clogging evacuation monkey?

Evacuees anguished at leaving pets behind

As Valerie Bennett was evacuated from a New Orleans hospital, rescuers told her there was no room in the boat for her dogs. 'She pleaded. "I offered him my wedding ring and my mom's wedding ring," the 34-year-old nurse recalled Saturday.'They wouldn't budge. She and her husband could bring only one item, and they already had a plastic tub containing the medicines her husband, a liver transplant recipient, needed to survive.
Dureza.

Dog Tag

Quando fiz o dog tag do Oliver, eu gostaria de ter colocado o meu celular - mas eu não tinha celular nos Estados Unidos, e ainda não tenho. Pensei em colocar meu email, mas achei que seria o cúmulo da internetofilia colocar um email em um dog tag. Resultado: o dog tag do Oliver só tem o nome dele, o endereço e telefone da minha casa.

Digamos que ele seja encontrado. A pessoa vai passar na minha casa, e não vai ter ninguém. Vai ligar pra lá, e ninguém vai atender. E então?

Quem iria adivinhar que a cidade seria destruída e abandonada e que minha casa estaria vazia? (Acho que só mesmo alguns comentaristas aqui do blog, que parecem saber tudo, inclusive o futuro.)

Raios raios raios.

* * *

Obrigado a todos que estão ajudando. Vocês são maravilhosos. Agora, o que eu queria mesmo era poder dormir.

Chutando o Balde

Não motivo para se preocupar com privacidade e discrição a essa altura do campeonato. Se tudo deu certo e o Oliver ainda está vivo dentro de casa, seu tempo está acabando. Preciso de toda a ajuda que puder arranjar. Foi esse blog maldito que me levou pra Nova Orleans, vejamos se ele também me ajuda a salvar meu cachorro. Façam o que quiserem com o texto abaixo. Podem reenviar, postar em fóruns, qualquer coisa. Preciso de vocês AGORA. Por favor.

* * *

Subject: Poodle Starving at 8231 Spruce St - URGENT / REWARD

Quick Summary:

Oliver, male, grey poodle, 10 lb

Pictures of him: http://www.flickr.com/photos/cruzalmeida/sets/89945

Locked inside: 8231 Spruce Street (between Dante and Dublin, near S.Carrollton), Uptown, New Orleans

Owner's Contact info: Alex Silva 510 644 2895 or 510 759 6290, cruzalmeida@sobresites.com

Alternate break-in point: backyard door, second floor.

You have my permission to break in. Signed: Alexandre Silva.

* * *

My name is Alex Silva, and I'm a Brazilian grad student at Tulane. I had just moved into New Orleans when Katrina struck. I knew no one, had no car, no connections, no resources, no anything, and I was forcibly evacuated along with Tulane's faculty and students.

At that point in time, the extent of Katrina's damage was not yet evident, and we were told we'd be away for at most 4 days. As they did not allow pets in the evacuation buses, I was forced to leave my dear dog, Oliver, behind. This was an excruciating decision, as Oliver has always been with me since I've owned him. In fact, I brought him to New Orleans from Brazil, as he is the most important thing in my life.

He's been inside my house since this past Saturday, Aug.27th, and I left him with food and water for roughly 5-7 days. He used to be a street dog, so he's pretty resourceful and knows how to save food. But he must be starving by now!

He is a grey poodle and there are pictures of him here (http://www.flickr.com/photos/cruzalmeida/sets/89945). He's locked inside the second floor of my house at 8231 Spruce Street, between Dante and Dublin, near S.Carrollton, in Uptown, New Orleans. The house is locked, whoever saves him would have to break in. The door is a small price to pay for my best friend's life.

My house phone number in New Orleans is 504 864 0626. I'm currently at my sister's in California, my numbers are 510 644 2895 and 510 759 6290. My email is cruzalmeida@sobresites.com.

If there is anything anyone can do, I would be immensely grateful and would pay a financial reward. This is my LAST hope, or he'll surely DIE!

Please please help.

Segunda, 5 de Setembro de 2005

A Véspera

É difícil não ficar pensando obsessivamente em Nova Orleans, a cidade que aprendi a amar em somente duas semanas. Lembro daquela velhinha que foi simpática comigo no bonde e penso: será que ela conseguiu se salvar? Lembro do prédio envidraçado da biblioteca e penso: será que os livros estão bem? É bastante duro.

Cheguei em New Orleans na sexta, 12 de agosto.

Pelas duas semanas seguintes, praticamente só o que fiz foi tentar regularizar minha situação burocrática, me inscrever em matérias, tomar vacinas, tirar social security number, fazer student ID, preencher formulários do imposto de renda, abrir conta em banco, criar email universitário, essas coisas.

Finalmente, na sexta, 26 de agosto, eu senti que tinha terminado meu período de acomodação: já estava com o social security number e meu primeiro cheque depositado na minha recém-criada conta bancária, tinha recebido até um carrel só pra mim na biblioteca. Minha cama estava com edredon novo, o Oliver estava de sapatos, eu estava matriculado em três disciplinas. À noite, li o excelente A Severed Head, da Iris Murdoch, romance maravilhoso emprestado da Biblioteca de Tulane, e fui dormir com meu cachorro enroscado nas minhas pernas, pensando no passeio que faríamos no sábado, enquanto o roomate aplicava remédio anti-pulgas na casa.

Minha vida em New Orleans iria finalmente começar.

E, no dia seguinte, bang.

Quando a gente mais acha que está tudo resolvido, aí é que a vida vem e dá uma rasteira.

Em Retrospecto

Em retrospecto, tudo é muito fácil. Em retrospecto, todos os generais de poltrona sempre sabem pra que lado mandar a cavalaria. Em retrospecto, as batalhas acabariam sempre empatadas.

Pois, em retrospecto, eu deveria ter pego meu cachorro, já nas primeiras horas de sábado, quando ainda deveriam haver vôos, e ter embarcado no primeiro pra São Francisco, e foda-se.

Mas o problema é que ninguém estava assim alarmado no sábado. No sábado, todos achávamos que provavelmente seria um alarme falso, como tantos outros, e todos voltaríamos pra casa na segunda. Ou, então, se o furação batesse, oh, seria uma tragédia, pois só voltaríamos pra casa três dias depois, na quarta ou sexta. Tulane previa recomeço das aulas pra quarta. Os alunos embarcaram para os abrigos como quem ia para uma excursão do colégio.

Nunca imaginei, nem eu nem ninguém, que mesmo no pior dos casos ficaríamos mais de uma semana sem poder voltar para casa. Seria impensável.

E a porra do impensável aconteceu.

Pra mim, o mais incrível não é nem o furacão, ou os levees terem arrebentado, ou a inundação da cidade. O inacreditável é o governo da nação mais rica e tecnologicamente avançada que o mundo já conheceu ter deixado um de seus cartões-postais cair na anarquia de uma guerra civil. Por que a cidade já não amanheceu, na quarta-feira, dois dias depois do furacão, no dia seguinte ao rompimento dos levees, totalmente sob ocupação de centenas de milhares de tropas do exército?! Como pode isso não ter acontecido?!

Qualquer idiota toma as decisões certas tendo todas as informações. Gênio é quem toma as decisões certas sem ter informação alguma.

Fico feliz de ver que tantos leitores sabiam exatamente o que iria acontecer e o que deveria ser feito. Da próxima vez que quiser investir em ações, vou olhar alguns desses nomes nas caixas de comentários do LLL e pedir umas dicas.

Pois eu não sabia, quando saí da minha casa no sábado a tarde, que nos próximos dias iria acabar passando por Mississippi, Michigan, New Jersey, New York, Illinois e California. Eu não sabia que uma semana depois ainda estaria refugiado só com a roupa do corpo. Eu não sabia que aquele quarto que aluguei com tanta felicidade pra ser a sede da minha futura vida nos Estados Unidos poderia acabar se convertendo no túmulo do Oliver.

Se eu soubesse, teria trazido agasalhos. Se eu soubesse, teria trazido meus documentos, meus dez DVDs com todo o conteúdo do meu computador ou minhas notas a mão para meus próximos romances.

Se eu soubesse, teria trazido o Oliver.

Terça, 6 de Setembro de 2005

O Oliver Está Vivo e Bem

Esse cachorro é duro na queda. Ele foi resgatado por um fotógrafo chinês e, no momento, está em um carro a caminho de Washington, DC.

(A ironia é que eu ia passar o Labor Day weekend in Washington e estaria lá agora, se minha irmã não tivesse me convencido a vir pra Califórnia antes.)

Eu sei que vocês estão curiosos, mas esperem um pouco. Primeiro, tenho que tirar o nome dele das listas de cães a serem resgatados.

Quarta, 7 de Setembro de 2005

O Resgate do Oliver 

Oliver de Sapatinho

Vocês leitores são sensacionais. Como é que vocês me acreditam em uma história ridícula dessas?! A cada detalhe que eu acrescentava, eu pensava: porra, agora alguém vai ter que dizer "Caralho, você tá zoando da gente. Quer mesmo que eu acredite no fotógrafo chinês?!"

Não me entendam mal. Cada detalhe inverossível dessa epopéia é verdade. Mas, nem eu, que sei que é verdade, acredito ainda. Acho que só vou acreditar quando ele estiver aqui, latindo na sala. Como é que vocês acreditaram e tiveram tanta fé?

Eu amo vocês.

* * *

Hoje de madrugada, 7 de setembro, o Oliver chegou em Washington DC e já está hospedado na casa dos sogros da minha amiga Renata.

Oliver Em PéTudo começou mesmo com a Renata, uma das minhas amigas mais queridas, uma pessoa que repetidamente me salva de mim mesmo e das confusões em que me meto. Não satisfeita em me salvar do Katrina (ela me mandou um email, quando eu estava no abrigo, em Jackson, dizendo simplesmente, "vem aqui pra NY ficar comigo agora, eu pago a passagem"), ela também foi quem indiretamente salvou o Oliver.

Depois que eu saí de NY para vir para a Califórnia, no sábado, ela foi passar o feriadão de Labor Day com os sogros, em Washington. Na casa dos sogros, que são colombianos (essa história é cheia de colombianos, inclusive meu roomate fidaputa), ela conheceu um outro casal colombiano, que estava lá com a filha, Marcela. A moça, mais ou menos da nossa idade, era de New Orleans. As duas não eram muito amigas mas começaram a conversar.Oliver Recostado

Pra começar, Marcela confirmou que o meu roomate era mesmo um filho da puta - como se eu não soubesse. Em uma emergência como essa, você não evacua a cidade com dois lugares vazios no seu carro. Você oferece lugar pra quem não tem carro. Até mesmo pra um vizinho que você não conheça muito bem. Qualquer um. Muitas pessoas morreram por falta de quem lhes desse carona pra fora da cidade.

Algumas horas depois, Marcela ligou pra Renata, disse que um amigo dela maluco iria tentar penetrar em Nola pra tirar umas fotos, passaria na casa dela pra pegar uns documentos importantes e poderia tentar resgatar o Oliver. A Renata deu meus dados todos mas nem ela nem eu tínhamos muitas esperanças.

Todos os elos dessa cadeia eram extremamente tênues. It was a long shot, at best.

* * *
Oliver - Still Hairy 2O herói dessa história se chama Mark. Falei com ele ao telefone ontem mas não consegui pegar seu sobrenome. Aliás, o homem não é chinês-chinês, e sim sino-americano.

Fotógrafo free-lance de revistas universitárias de Washington, ele e um amigo decidiram penetrar em New Orleans, documentar a tragédia do Katrina e tentar tirar algumas boas fotos pra vender depois.

UPDATE

O nome dele é Mark M. Gong. Confiram seu portfólio ou suas fotos de New Orleans pós-Katrina.

Chegando lá, viram que a coisa era mais complicada do que imaginavam. Ruas alagadas ou bloqueadas por árvores ou destroços, toque de recolher do exército, saques e tiros, um caos.Oliver Sempre Alerta

Agora, tem mais um detalhe daqueles que fazem parecer que a história foi escrita por um mau roteirista de Hollywood. Eu posso até ver um leitor mais cético fechando o blog e dizendo, putaqueopariu, até aqui eu até vinha acreditando, mas agora esse gordo mentiroso exagerou! Mas, enfim, foi assim que me contaram.

Mark ligou pra Marcela e disse que as coisas estavam muito difíceis em Nola. Não iria dar pra pegar os importantíssimos documentos dela e salvar o cachorro do amigo da mulher do filho dos conhecidos dos pais dela. Talvez não desse pra fazer nem um. O que ela preferia?

Oliver DescansandoNão sei quanto tempo Marcela pensou antes de responder, mas acabou dizendo: salva o cachorro.

Na segunda de manhã, Mark e o amigo chegaram na minha rua. A água estava batendo no segundo degrau da casa, ou seja, havia cerca de um metro de água na rua. A princípio, ele ficou relutante em arrombar a porta. Chamou pelo Oliver. Lá de dentro, o cachorro latiu de volta.

Finalmente, ele tomou coragem e arrombou a porta.

A casa estava toda cagada e mijada, um fedor dos infernos. Tirando isso, as janelas todas resistiram, tudo em ordem. O Oliver não parecia triste ou fraco ou abatido mas sim (como sempre) elétrico e cheio de energia. Mark não viu comida nenhuma (eu tinha deixado 2kg nove dias antes, mas estavam pelos cantos, ele pode não ter visto ou o Oliver pode ter comido tudo) mas disse que ainda havia muita água no balde e na bacia.Oliver Em Pé

Ou seja, esse cachorro sem-vergonha, esse cachorro herói, esse cachorro durão estava bem, agitado, latindo, e ainda tinha guardado sua água muito bem. Não estava nas últimas coisa nenhuma, como todo mundo achou, e provavelmente ainda aguentaria vários dias por lá.

Nesse momento, o Mark cometeu um erro pelo qual ele iria se arrepender amargamente nos dois dias seguintes. Ele não viu a caixa de transporte do Oliver, a caixa na qual ele veio do Brasil e que estava em lugar bem visível no meu quarto.

O Oliver é hiperativo. Ir com ele de carro até a esquina é um sacrifício, ainda mais de New Orleans até Washington DC. A caixa seria uma excelente maneira de garantir uma viagem mais segura e tranqüila.

O Mark admitiu que, realmente, o primeiro dia no carro foi meio infernal pros três mas que, no segundo, eles já tinham "warmed up to one another".

Finalmente, hoje, quarta feira, as quatro da manhã hora local, Mark e seu amigo deixaram o Oliver na casa dos sogros da Renata.Oliver - Still Hairy

* * *

Esse homem é meu herói. De verdade. Por uma série de razões.

A primeira é por ter conseguido entrar em Nola, sozinho, só ele e um amigo, quando muita gente boa e mais cheia de contatos não conseguiu. Depois, ele conseguiu achar meu endereço em uma cidade desconhecida e totalmente convulsionada, arrombou minha porta sem ninguém prendê-lo ou linchá-lo, resgatou o Oliver e ainda dirigiu por dois dias com aquele bicho maluco perturbando.

E tudo isso pelo cachorro do amigo da mulher do filho dos conhecidos dos pais da amiga dele. Sensacional.

Ele hoje está chapado em casa. Vai dormir o dia todo.

Amanhã ou hoje mais tarde, vou falar com ele por telefone e MSN, ele vai me dar mais detalhes, me mandar algumas fotos da casa e do Oliver e escrever um breve relato aqui pro blog. Provavelmente, essa história que contei aqui tem vários errinhos factuais que ele deve poder corrigir.

Eu disse pra ele que o Oliver era famoso no Brasil todo e que meu último post, avisando do resgate, já estava com mais de duzentos comentários e ele morreu de rir.

Aguardem mais detalhes.

Oliver de Sapatinho

* * *

Agora, os meus problemas imediatos de refugiado:

1. Ser aceito oficialmente em Berkeley pra cursar disciplinas aqui. Quase resolvido.

2. Continuar sendo regularmente pago pro Tulane. Eles juraram que vão continuar pagando, mas a burocracia vai ser complicada.

3 Arranjar um lugar pra ficar pelos próximos quatro meses, em Berkeley, que aceite cachorro e que não seja absurdamente caro. Tudo aqui é caríssimo e eu tenho que viver com $900 por mês. Encontrei um site maravilhoso, com muitas ofertas especiais pra refugiados do Katrina, e estou saindo daqui a pouco para ver apartamentos. Pode ser resolvido em breve, mas ainda assim preciso de toda a ajuda possível.

UPDATE:

graças ao site acima, eu já consegui um apartamento em Berkeley pra morar, de três quartos, na melhor vizinhança da cidade, pagando a mesma coisa que pagava em Nola, ou seja, quase nada.

4. Voltar pra Nova Orleans o mais rápido possível pra tirar minhas coisas de casa. Já tive uma discussão com meu roomate, ele queria me cobrar setembro, eu não vou pagar, ele está ameaçando jogar minhas coisas na rua (ou seja, na água) assim que chegar lá.

5. Finalmente, preciso de algum jeito de trazer o Oliver de Washington DC pra Berkeley. Esse é o MAIOR problema e estou aceitando qualquer oferta de ajuda, qualquer idéia, anything. Naturalmente, eu já não tenho dinheiro pra nada.

UPDATE:

a Continental Airlines está transportando, de graça, animais de estimação que se separaram dos donos. Tudo o que tive fazer é provar que eu morava em New Orleans. Até sexta, o Oliver deve estar aqui. Bendita Continental.

Enfim, comparado com o meu inferno da semana passada, nada disso parece importante. Essa não foi a primeira vez que achei que tinha ficado livre desse bicho louco mas foi, com certeza, a pior.

Estou escrevendo um post contando algumas das outras aventuras do Oliver. Sobreviver o Katrina foi apenas sua maior façanha, de modo algum a única.

* * *

A leitora Jade, de Washington, foi pra Nola como voluntária e estava com todos os dados do Oliver. Ele teria sido resgatado por ela, se o Mark não tivesse chegado antes. Eu ainda consegui deixar uma mensagem no celular dela, dizendo que não precisava mais. A Jade foi realmente sensacional. Aproveitando que estava nas redondezas, ela tirou as fotos abaixo, no bairro de Uptown, bem perto da minha casa. Minha rua provavelmente está igualzinha:

Uptown - New Orleans Uptown - New Orleans

* * *

Mais uma vez, obrigado a todos. Vocês conseguiram convencer um velho cínico ateu que existe muito mais gente boa nesse mundo do que eu imaginaria possível. Recebi emails, telefonemas e ofertas de ajuda do mundo inteiro. Abaixo, alguns exemplos:

Your plea for Oliver touched my heart as I am a poodle owner (on my fourth and have had different poodles for 30 years). Oliver has been rescued by now I hope. Because I can not locate anything on the Internet about him tonight I feel sure that since so much is being done to find all the pets for the people in NO surely Oliver has been found safe. Please let me know. I live in Oklahoma but if I had been in NO I think I would have tried to get to him for you but I am an old woman (81) but I love my Poodle "Rufus" (silver, tiny, toy) just as you love "Oliver". Hug and prayers,

Just trying to help hope it does. I cannot imagine what it would be like in a new country and lose your four legged companion that has traveled as far as you. My prays are still with you and "Oliver" I search for him for you.

I wrote you yesterday and then talked to my husband. He is a pilot for XXXX Airlines. If your poodle is located, he said I could just fly him/her out to you. I can fly for a lower fare than on the internet. He also said that if you need us to keep it until you can get it back, that is OK too. I am a school district administrator so it would be best for it to be a weekend. However, if your pet is found on a Monday, I will just go get it for you. I just hope this works out for you and they can get your pet. No, you would not owe me anything- I would just do it to help you. Please keep me updated. Praying for you and your pet,

I just read about your poodle. If you need to have it housed after it is rescued, I would be happy to take it for you until you are able to take it back. I have a 12 year old toy that was born in Ft. Walton Beach, Fl. I used to live in Pensacola. My husband is a retired Navy Pilot, and now flies for XXXX Airlines. I just housed 2 Brazilians this summer through the YMCA of Fairfield, OH and SanPalo, for 3 weeks. My boys are probably close to your age, but they are not here. One is 27 and in law school at Ohio State, and the other is at the Coast Guard Academy, in CT, and is hoping to become a pilot as well. XXXXX gets his orders this coming Tuesday. I can probably fly down to get the poodle once it is rescued. Mine is only 9 pounds and fits under the seat in the plane. I could possibly even fly out to Calif. to bring you the poodle, as long as there is room on the plane. Let me know if I can help you-my Scarlet is my daughter to me. My prayers are with you.

I live in VA but read your post. My heart goes out to you and everyone who went through the whole ordeal and is continuing to deal with the trauma. I am a pet lover myself so it breaks my heart that these pets are missing. Did you get any info? will you keep me posted if you have time. My prayers are with you.

Olhei um monte de fotos tuas... dá dozinho mesmo de não poder fazer nada.Lembrei da minha poodle que era parecidinha com o Oliver... espero que consiga salvá-lo. de coração.. e que vc fique bem. está abroad, ainda? ou já voltou? se precisar de um ombro ou colo amigo, estou à disposição, viu?

Here is some more info that I came across yesterday in my search for another what some people tell me at the hospital that I work at was a lady carring her only possesion she had left , no family , no home, no ID, NOTHING. Just her little four legged companion of 9 years. They say it was a little poodle but, when she tried to get on the bus with the dog they refused to let her board with the dog. So I heard that the bus pulled away and the camera crew video'd the little poodle sitting there looking for its only friend it ever knew. Tell me How can people be so cruel at times? Our pets are our companions our love. and the little boy that would not leave his dog "Snowball" but they made him leave Snowball behind. The boy became so distraught he starting getting really sick and vomitting. Thats wrong! In my eyes! Hope this is another site to help you. Praying for you !

My heart goes out to you....Have you had any word of anyone going and getting Oliver? I am a poodle breeder In Kansas (honest person) I will do my dead level best to help you. I sit here alone with my little poodles because my husband is in Iraq and I am in total tears for your heart is with Oliver. I have seen the pictures he is to beautiful. Oh, like you I pray for his safe return to your loving arms. Please if you wish me to help tell me what I could do. I would even if they have him in a shelter take him in and take care of him for you and get him shipped to you. I have shipped several poodles to Calif. I have crates that are big enough for him. Have have a new wonderful home in the country in kansas. He would be safe ........Oh I pray he has made it...... Please let me know I WILL HELP .... here is my website I need to update it but since my husband has been in Iraq for a year its been hard for me.
* * *

Leia Oliver nos Estados Unidos, com meus motivos pra trazê-lo pra cá, ou veja todas as fotos dele.

UPDATE

Eu, em geral, evito de usar muitos nomes próprios nas minhas histórias pra não confundir, mas teve gente confundindo minha amiga Renata com a colombiana amiga do Mark, então decidi incluir o nome dela na história. Quem renunciou aos documentos pra salvar o Oliver foi a Marcela. Vejam acima.

Quinta, 8 de Setembro de 2005

Tudo Está Bem Quando Acaba Bem

Vai acabando a aventura e as pontas soltas vão sendo amarradas. Vamos à elas.

untitledMark Gong

O nome do homem que resgatou o Oliver é Mark Gong. Ele tem 26 anos, mora em Maryland, é fotógrafo freelance e está tentando trabalhar na grande mídia como fotojornalista. No momento, sua prioridade é tentar vender as fotos que tirou em Nova Orleans para alguma revista, jornal ou agência. Se alguém tiver contatos e puder ajudá-lo, eu agradeço pessoalmente.

Vocês podem conferir seu perfil (com uma pequena foto), seu portfólio ou as fotos que tirou em Nova Orleans durante a viagem em que salvou o Oliver (algumas abaixo). Vão lá, dêem opiniões, divulguem.

A Long Wait No More Boats in Water Man with Bird

Eu não sei o que fazer pra agradecer a ele, mas aceito sugestões. Ele deixou eu revelar seu email. Acho que ainda não se deu conta de que resgatou um cachorro popstar. Escrevam e contem pra ele: o endereço é markgong no gmail.

Moradia: Hurricane Housing

Eu estava procurando apartamentos pra alugar em Berkeley e adjacências, mas aqui é tudo absurdamente caro. Encontrar uma vaga barata, que ainda por cima aceitasse cachorro, foi simplesmente impossível. Até o menor quartinho custa quase $800. Um apartamento quarto e sala não sai por menos de $1100. Pra não falar dos vários anúncios exigindo roomate gay. Eu quase respondi: amigo, sou solteiro e tenho um poodle, you do the math.

Felizmente, um leitor me recomendou o site Hurricane Housing, organizado pela ong Move On. Infelizmente, já não sei mais quem foi. Aliás, vocês vão ter que ser pacientes comigo. Foi tanta gente maravilhosa oferecendo ajuda, dando dicas e idéias, e eu estou tão baratinado e overwhelmed que simplesmente já não consigo mais saber quem falou o quê. Se eu deixei de agradecer sua ajuda ou oferta de ajuda, por favor, me perdoe.

Enfim, o Hurricane Housing é um site onde pessoas se oferecem pra hospedar os desalojados do furacão. Pode ser por um dia ou por dois meses, pode ser no chão da sala ou no quarto de hóspedes, pode ser oferecendo comida ou não, com cachorro ou não.

O espírito de solidariedade desse povo está me deixando soterrado. Acho que não posso mais voltar pro Brasil porque da próxima vez que um marxista festivo vier torcer o nariz pros EUA, eu vou querer dar porrada. Só num raio de 50 milhas do CEP da universidade haviam 878 pessoas oferecendo hospedagem às vítimas do Katrina. 878! Isso é lindo demais.

As ofertas eram, via de regra, por cerca de um mês e sempre gratuitas. Liguei para muitas das pessoas que permitiam cachorros e fiz uma contra-proposta: ao invés de só um mês, eu precisava de lugar pra ficar por quatro meses, pois passaria o fall semester em Berkeley; por outro lado, não precisava ser graça, eu poderia pagar um small rent, desde que não precisasse dar depósito e fosse abaixo do valor de mercado da região.

Acabei ficando na casa do David, um senhor de quase 60 anos, casado, pai de sete filhos, todos já morando fora de casa. Por $400 dólares, a mesma coisa que eu pagava por um quarto em Nova Orleans, ele me alugou o basement de sua casa, com três quartos, um banheiro de sonho, cozinha totalmente equipada, entrada independente, quadra de basquete e quintal pro Oliver. Um apartamento que, segundo ouvi, se alugaria por $1500.

Ainda disse que seu cachorro (não conhecia a raça) de 13 anos tinha morrido três meses antes e que ele e sua mulher estavam carentes de companhia canina. Ou seja, enquanto eu estivesse fora, o Oliver não ficaria sozinho.

Meu cunhado, doutorando em Economia em Berkeley, ficou morto de inveja: ele e minha irmã pagam três vezes mais pra morar em um lugar três vezes menor.

Quem mandou não estudar em uma cidade onde passam furacões?

Transporte pro Oliver: Continental Airlines

Continental

Mais uma vez, shame on me, não lembro mais quem sugeriu, mas algum leitor tinha que dito que a Continental Airlines estava transportando, de graça, cachorros que tinham se separado de seus donos durante o furacão.

Eu confesso que achei bom demais pra ser verdade. Fui no site, não vi nada. Fui nas páginas sobre transporte de cachorros, nada. Na dúvida, decidi ligar, não custava nada. Já era um bom sinal ver que eles tinham um 0800 só pra questões relacionadas à animais de estimação. Claramente é uma empresa que valoriza o assunto.

Falei com a simpaticíssima Darla, na matriz, em Houston. Ela pareceu não saber muito bem do que se tratava (o que mostra que ainda não tinha sido feito antes) mas achava que tinha recebido um email a respeito. Fuçou e encontrou. Sim, se eu pudesse provar que era residente do estado da Louisiana, com um documento oficial com foto e endereço, a Continental transportaria meu cachorro de graça até mim. De graça! Demorei a acreditar. God bless America, god bless capitalism!

Graças a Bush e Osama, os vistos americanos agora vêm com foto. Ainda bem, senão, não rolaria. A supervisora da Darla ainda fez um doce, porque no visto não consta o endereço, mas é um documento oficial emitido pelo governo federal, com foto e afirma que sou estudante da Universidade de Tulane. Ora, se estudo em Tulane, onde mais eu moraria a não ser na Louisiana?!

Mandei as fotos do Oliver pra Darla e ela achou ele lindo demais. Me fez prometer que mandaria novas fotos pra ela assim que nos reencontrássemos.

Vocês podem ficar certos que muito em breve vai ter um banner ou botão da Continental aqui. Não vou esquecer o que essa empresa fez por mim e pelo Oliver.

Oliver em Washington

Depois de nove dias sozinho em casa e dois dias no carro entre Nova Orleans e Washington, o Oliver finalmente está instalado na casa dos sogros da Renata.

Ele estava bem, agitado, nada magro, fedido, pêlo alto e cheio de pulgas. No dia em que tive que evacuar, sábado, 27, o roomate ia aplicar remédio pra pulgas na casa e eu aproveitaria pra passar o dia fora com Oliver, inclusive levando-o para banho e tosa.

Ele seguiu o sogro da Renata por todos os cantos e não quis ficar sozinho de jeito nenhum. Carentíssimo. Também não aceitou muito bem a comida que deram, mas isso é frescura dele. Recomendei leite. Leite é a coisa que ele mais gosta.

Então, sexta-feira agora, às 11 da noite, eu vou buscar o Oliver no Aeroporto de Oakland, vindo no vôo 359 da Continental, com escala em Houston.

Quando na vida que eu iria me imaginar indo buscar cachorro no aeroporto?

Realmente, esse bicho é incrível. Ele conhece os Estados Unidos melhor do que muito americano e, com certeza, do que a imensa maioria dos brasileiros.

Oliver's Travels

Pensem bem: ele desembarcou em Miami e foi de carro comigo até New Orleans: 1500km pelo Deep South. Depois, foi resgatado de New Orleans e levado pra Washington DC também de carro: 1700km, pelo coração da América. Agora, vai voar de Washington pra Oakland, Califórnia, sozinho no avião: 4500km, de costa a costa. E, finalmente, quando eu for voltar pra New Orleans com ele, em janeiro, provavelmente vou comprar um carro aqui e ir dirigindo até lá: 4300km ao longo da fronteira com o México.

Em termos de odômetro, o Oliver deve ter mais quilometragem do que a maioria dos leitores.

Resumo da Ópera

No final, parece que acabei me dando muito bem.

Estou em um dos meus lugares preferidos (a Bay Area), estudando em uma das melhores universidades do mundo (UC Berkeley, Cal, pros íntimos), que tem um dos melhores departamentos de Espanhol e Português do país, meu cachorro chega amanhã, Tulane garante que continuará me pagando e ainda arrumei um apartamento de três quartos, na melhor área da cidade, por menos de um quarto do preço de mercado.

A única coisa que falta fazer é voltar pra New Orleans e pegar o resto das minhas coisas.

Eu confesso que penso cada vez com mais saudosismo dessa cidade que só conheci por duas semanas mas que, por duas semanas, considerei minha. Acho que vai ser emocionante voltar pra lá em janeiro e participar, pelos próximos cinco anos, da reconstrução dessa cidade que é única no mundo.

Sexta, 9 de Setembro de 2005

Contato Físico

Em poucos minutos, o Oliver estará embarcando no vôo que o trará à Califórnia.

Amanhã, faz duas semanas que tive que evacuar de New Orleans e deixar o Oliver pra trás. Ficar duas semanas sem ele me fez entender muita coisa, desde aqueles solteiros pegadores desesperados até aquelas solteironas dos gatos que desistiram da vida.

Nesses últimos trezes dias nômade pelos Estados Unidos, apesar de todo o amor que recebi de amigos e estranhos, eu não beijei ninguém, não dormi abraçadinho com ninguém, não fiquei sentadinho de bunda colada no sofá com ningém. Nada.

Não estou falando nem de sexo. Estou falando de uma coisa muito mais básica, talvez até mais animal: contato físico, sentir o calor do outro, dar um abraço apertado.

Estudos comprovam que ter um animal de estimação acalma os nervos, baixa a pressão e diminui a incidência de ataques cardíacos.

Ter um cachorro é uma delícia. Já falei sobre isso aqui várias vezes. Se não fosse saber que o Oliver estava me esperando, precisando de mim, quantas vezes eu não teria voltado pra casa? Se não fossem os problemas dele que só eu poderia cuidar, o quão eu não me deixaria afundar nos meus próprios?

O Oliver é uma maquininha de amor, meu amigo, meu companheiro. Estávamos passeando em média uma hora por dia pelas ruas de Nova Orleans. Ele dormia entre minhas pernas ou fazendo pressão contra o meu corpo. Ele também, de um modo bem animal, queria ter a certeza física de que eu estava ali.

Subitamente, percebi que eu estava desesperado por contato físico. Durante essas meras duas semanas sem o Oliver, eu me senti quase que um semi-humano. Um leproso. Sem ninguém pra se encostar gostosamente em mim.

E pensei que deve ser por isso, buscando essa conexão mínima entre dois seres vivos, que esses homens patéticos pegadores passam o pente fino em boates noite após noite, desesperados, tentando preencher um vazio que nem sabem o que é.

E que também deve ser por isso que tantas mulheres desistem da vida e tornam-se a velha dos gatos do 802, largando mão dos homens complicados e confortando-se com o amor mais tranquilo de cães e gatos.

Eu só sei que essa noite eu vou dormir com o Oliver.

* * *

Sobre as delícias de ter cachorro.

Domingo, 11 de Setembro de 2005

A Casa Nova

Tudo na minha vida é mesmo insólito.

Encontrar lugar pra ficar em Berkeley que aceitasse cachorro e fosse barato provou-se impossível. Finalmente, descobri um site onde voluntários cediam suas casas, quartos de hospédes, sofás da sala, o que pudessem, para hospedar os refugiados do furacão.

David, um típico californiano liberal (aqui, liberal quer dizer de esquerda), estava oferecendo um apartamento independente no primeiro piso da sua casa, onde sua filha deficiente tinha morado durante 15 anos. São três quartos grandes, banheiro e cozinha, em uma das melhores ruas da cidade.

A oferta no site era pra ficar um mês de graça, mas como eu passaria o semestre em Cal, fiz uma contra-proposta: morar aqui por quatro meses, pagando o que eu pagava em Nola. Pra ajudar um refugiado, David topou. Ao invés dos $1500 que receberia por um apartamento desse tamanho, nessa localização, receberia $400. Eu lambi os beiços.

Casa Nova Casa Nova Cozinha

Ou seja, aqui estou eu, morando em uma casa de família, com meu cachorro, em um apartamento especialmente desenhado para uma cadeira de rodas.

Reparem como tem corrimão por toda a casa. Até no box, o que é ótimo - em Nova Iorque, no dia em que cheguei lá fugido do furacão, eu levei um tombo no banho e fiquei cheio de hematomas, inclusive na testa. Por outro lado, o chuveiro é baixo e tenho que tomar banho agachado.

Casa Nova Banheiro Casa Nova Corredor Casa Nova Escritorio

Minha grande dúvida foi: por que não tem pia no banheiro? Reparem bem nas fotos. O banheiro tem privada e box, mas a pia fica em um dos outros quartos. Fiquei quebrando a cabeça. Com certeza, havia um motivo lógico para isso, deveria ser mais eficiente para a moça por alguma razão, mas simplesmente não consegui descobrir . Perguntei ao David. Depois, claro, fiquei com vontade de dar com a cabeça na parede de tão óbvio que era. Não vou nem contar aqui, pra dar uma chance pra vocês. Vamos ver se são mais espertos que eu.

Casa Nova Pia no Quarto Casa Nova Oliver Já Arrumou Seu Lugar Favorito

Em frente à minha porta, há o quintal que agora é do Oliver, as roseiras que ele vai defender dos veados como parte do seu contrato de locação, uma quadra de basquete e uma macieira e um limoeiro, ambos cheios de frutas.

Oliver Cheirando as Maçãs Casa Nova Quintal Casa Nova Quadra de Basquete Casa Nova Porta de Entrada Casa Nova Macieira no Quintal

Não sei vocês, mas vou sentar nas mesinhas do meu quintal, comer maçã do pé, apreciar o pôr-do-sol e ver o Oliver dar uma coça nesses veados comedores de rosas.

A Chegada do Oliver na Casa Nova

Sexta-feira à noite, eu, minha irmã e meu cunhado buscamos o Oliver no Aeroporto de Oakland e eu e ele dormimos nossa primeira noite na casa nova.

Gatos de New Orleans

Na seção de desembarque de carga, outra new orleanian esperava seus bichinhos transportados de graça pela Continental. Quatro gatos, na foto acima. A família dela saiu no domingo, véspera do furacão, e a filha ficou pra trás, por causa dos gatos. Eles moravam no segundo andar de uma casa, ao lado do 17th St breach. Quando o levee rompeu, ela disse que as águas ficaram acima do segundo andar, a filha deve que sair com os gatos pela janela e ir pro telhado.

Felizmente, como estavam ao lado do levee, era terreno alto, a água subiu só no exato momento do rompimento, mas logo escoou pras áreas mais baixas da cidade.

O Oliver chegou em uma caixa tão bem fechada que não consegui abrir nem no aeroporto nem no carro. Tive que esperar chegar em casa. Abaixo, ele, no instante em que foi depositado aos meus pés.

Oliver No Segundo Que Ele Chegou

Achei que estaria nervoso ou estressado, mas não. Parecia seu eu de sempre. Brincamos muito, ele estava muito gostoso. E fiquei pensando: esse puto desse bicho enfrentou o maior furacão de todos os tempos. Abaixo, eu e ele, no Aeroporto de Oakland.

Eu e Oliver no Aeroporto de Oakland

Quando comentei com o dono aqui da casa que o Oliver latia um pouco, ele comentou: meu filho, contanto que ele espante os veadinhos que vêm comer minhas rosas, eu fico satisfeito. Não deu outra: assim que chegamos em casa, vindos do aeroporto, tinha um cervo, todo majestoso, comendo as rosas do homem a menos de dois metros da minha porta. Infelizmente, o Oliver ainda estava preso na caixa, mas o bicho fugiu assim que chegamos.

No Rio, o Oliver não caçava nada. Em Nova Orleans, ele caçava esquilos. Em Berkeley, caçará cervos. Fico pensando que na próxima mudança teremos que ir pra África, pra ele caçar rinocerontes. Abaixo, eu e o Oliver, no quintal da casa nova.

Eu e Oliver na Casa Nova

A família tinha um setter chamado Clark, morto em junho, aos 14 anos. O Oliver, ainda por cima, herdou todo o enxoval do Clark (foto abaixo). Eu fiquei olhando aquelas coisas todas, uma por uma, e juro que me vieram lágrimas nos olhos de pensar naquele cachorro tão amado, tão saudoso. Tinham brinquedos, remédios, cumbucas, camas, coleiras, roupas, guias, biscoitos, you name it. Oliver adorou.

Herança do Oliver

Sábado, ficamos o dia todo na cama. Depois de duas semanas nômade, dormindo na sala dos outros, eu estava realmente precisando disso.

Apertei muito o Oliver, agradeci mentalmente a todos vocês e pensei em quanto somos afortunados de somente estar juntos de novo. Na foto abaixo, ele mostrando o seu dog tag com endereço de Nova Orleans, que ele não vai mais precisar.

Oliver e seu Velho Dog Tag

Ah, aproveitei o dia na cama pra ler From a Buick 8, do King. Chato. Mas foi o primeiro livro que eu tive tranquilidade de ler desde a evacuação.

* * *

Eu acho esse tipo de post extremamente chato e desinteressante. Não é algo que eu jamais postaria no blog, somente contaria por email pra amigos e família. Mas vocês pedem tanto, enfim, aqui vai. Espero em breve voltar a só publicar coisas realmente interessantes nesse blog.

Quarta, 14 de Setembro de 2005

O Meu Dom

Estava conversando com A-Mulher-Que-Eu-Amo no MSN. A gente se conheceu no Rio, no final de julho, e rolou uma coisa muito estranha, uma atração enorme, uma força que veio sei lá de onde. Deixar ela pra trás no Rio dificultou ainda mais a partida.

Ao longo dessa crise, foi ela quem esteve mais próxima a mim, foi ela que carreguei no meu coração enquanto pulava de estado em estado, foi com ela que eu falava sozinho nos piores momentos. Ela também esteve sempre do meu lado, via MSN ou telefone, longas conversas que me mantiveram são e humano.

Uma vez tudo acabado, eu perguntei pra ela: você acabou de me ver em meio à maior crise da minha vida, e acho que a gente aprende muito sobre as pessoas durante as crises, o que você aprendeu sobre mim durante esse drama que você ainda não sabia?

E ela: aprendi que você sabe fazer amigos. Isso é um dom.

* * *

Depois desse estresse, muita gente veio me dizer que sou safo, que sempre consigo me virar, that I always land on my feet.

Eu até concordo. Sim, eu sou safo. Sim, eu sei me virar. Sim, I always land on my feet.

Mas não por nenhum mérito meu. Só porque eu sou cercado de pessoas maravilhosas, que me ajudam, que me amam.

Se tenho algum mérito, é esse.

Quinta, 15 de Setembro de 2005

Fotos do Oliver em Washington

A Marcela é a santa que convenceu o Mark Gong a salvar o Oliver e ainda abdicou dos seus documentos. O Dr Jaime é o santo que hospedou o Oliver em Washington, levou ele no veterinário e ainda comprou uma nova caixa.

Depois, os dois foram levá-lo ao aeroporto.

Oliver em Washington 2 Oliver, Marcela e Jaime Oliver em Washington

Reparem como esse cachorro sem-vergonha está à vontade nas fotos.

Sexta, 16 de Setembro de 2005

Waterloo & Katrina, Nova Orleans & Rio

Quando a gente está no meio da batalha de Waterloo, nunca se dá conta de estar no meio da batalha de Waterloo. Ficamos mais preocupados em desviar de balas, proteger as costas, atacar a cavalaria inimiga, essas coisas. Considerações geoestratégicas são colocadas em segundo plano. O soldado que parou muito tempo pra pensar "caramba, não é que estou no meio de uma das batalhas mais decisivas de todos os tempos!" levou uma espada nas costas antes de terminar o pensamento.

Durante as últimas duas semanas, eu mal tive tempo de pensar direito nessa tal Katrina. Estava preocupado com minha segurança e com a do Oliver ou se conseguiria dinheiro pra pagar as passagens, vaga em Berkeley, transporte pro Oliver ou apartamento pra alugar e, até mesmo, simplesmente, se Tulane continuaria me pagando.

Agora, a poeira começou a assentar. Faltam muitos problemas pessoais pra resolver. Os maiores deles são arrancar algum dinheiro de Tulane antes que minhas parcas economias acabem e pegar minhas coisas em Nova Orleans, mas já estou tranquilo o suficiente para conseguir pensar nessas coisas E também no Katrina de modo geral.

E começo a me dar conta de que talvez tenha vivido o episódio mais fantástico da minha vida. Que talvez, daqui a 60 anos, quando a gurizada me apontar, eu vou ser não o vovô que escreveu Mulher de um Homem Só ou que ganhou o primeiro Nobel de literatura do Brasil (ha ha), mas o vovô que sobreviveu àquele furacão, o Katrina. E vão recomendar: mas não pergunta nada pra ele, não: se não... ele conta!

É até covardia falar em maior tragédia da história tão pouco tempo depois do tsunami, mas, de certo modo, o Katrina foi ainda mais surpreendente. Quem imaginaria uma catástrofe desse tipo em uma avançada cidade ocidental? Já houve algum outro caso de metrópole do primeiro mundo assim devastada em tempo de paz? Imaginar que isso pode acontecer na maior potência de todos os tempos é assustador - e humbling.

* * *

E a diáspora? Os um milhão e meio de habitantes de New Orleans estão agora espalhadas pelo país. Quando foi que o ocidente viu um êxodo desses? O famoso êxodo dos judeus, cantado pela Bíblia, foi minúsculo em comparação a esse. Só Tulane deve ter mais alunos do que haviam judeus naquela época.

Imaginem se fosse Salvador. Imaginem Salvador evacuada e os soteropolitanos todos espalhados pelo Brasil, só com a roupa do corpo, se perguntando quando poderiam voltar, olhando na CBN os destroços do Elevador Lacerda.

Essas pessoas vão voltar? Terão o que fazer em Nova Orleans se voltarem? O que vai ser de Nova Orleans se NÃO voltarem?

É de dar nó na cabeça.

* * *

Quando a ex foi contratada pra dar aulas no Timor e ajudar a elaborar o novo currículo, eu pensei: puxa, lá vai ela viver fortes emoções em um país se recriando do zero, enquanto eu vou pra uma comportada metrópole ocidental viver uma comportada carreira acadêmica.

Quem imaginaria que a viagem aventuresca seria a minha!

* * *

Eu tenho certeza que vai ser empolgante estar em Nova Orleans durante a reconstrução.

De certo modo, Nova Orleans tem muito a ver com o Rio. São cidades que despertam fortes paixões.

Enquanto eu crescia, no Rio, amando a cidade loucamente, cercado de pessoas que também amavam a cidade loucamente, eu tinha essa impressão que todas as pessoas amavam suas cidades do mesmo jeito. Que os curitibanos também amam Curitiba tanto quanto os cariocas amavam o Rio, etc etc. Mas não é verdade.

À medida que fui viajando, fui percebendo que a maioria das pessoas ama sim, de certo modo, o chão em que nasceu, mas não apaixonadamente. São poucas as cidades que geram verdadeiras relações apaixonadas com seus habitantes. Rio, Nova Iorque, Paris, Nova Orleans.

Talvez a explicação seja a diferença. Acho que se você é de Chicago e se muda pra, sei lá, Detroit, as coisas vão ser diferentes, mas não tanto. Já Nova Orleans realmente tem uma cultura única, pra bem ou mal. Se você nasceu em Nova Orleans, se você ama Nova Orleans, bem, não adianta se mudar pra Nova Iorque, São Francisco ou Miami: as coisas que você amava em New Orleans não estarão lá.

Por isso, eu tenho fé que Nova Orleans será reconstruída.

Os paulistas são práticos. Se São Paulo fosse destruída, talvez decidissem que seria mais eficiente ou mais economicamente interessante reconstruí-la de outro modo, em outro lugar, com outro nome.

Já os cariocas, sei não, mas acho que pararíamos tudo pra reconstruir o Rio exatamente como era.

* * *

Mas não faltam dificuldades.

Funcionários da indústria de turismo local dizem que todos os pontos turísticos da cidade estão prontos para serem reabertos, desde os restaurantes do French Quarter até os hotéis do centro e CDB, incluindo boa parte do Garden District e Uptown. Só tem um problema: quem vai trabalhar nesses estabelecimentos? Quem perdeu tudo, quem morreu, quem talvez nem volte mais eram justamente os garçons, faxineiros, motoristas, etc, que moravam nas áreas mais afetadas.

E aí? Quem vai fazer o serviço sujo?

* * *

Também me preocupa a questão ambiental. A enchente de Nova Orleans não foi como as que vi no Rio, destrutivas mas escoadas em um dia.

Nola está há mais de duas semanas imersa em águas infestadas de petróleo, metais pesados e químicos venenosos. Quando essas águas forem escoadas, como estará a cidade embaixo dela? Haverá verde, árvores, arbustos, gramados? Será que o cheiro será tolerável? Sendo bem prático, será seguro pra andar com o Oliver, que tem a cabecinha quase no nível do chão?

* * *

Eu vou voltar. Afinal, enquanto estou aqui, na Califórnia, no bem-bom, Tulane continua me pagando - pelo menos, teoricamente; ainda não chegou nenhum cheque.

Seria muita canalhice em janeiro eu dizer: olha só, Tulane, está tudo tão bom em Berkeley, acho que vou ficar por aqui mesmo. Como cantariam os golfinhos, so long and thanks for all the checks.

A verdade é a seguinte: se as pessoas não voltarem, a universidade acaba. Se a universidade acabar (Tulane é o maior employer de Orleans parish), a cidade vai atrás.

* * *

Morei no Rio por 31 anos e 6 meses. Morei em Nova Orleans por duas semanas.

Não estou com saudades do Rio. Não ainda. Talvez porque passei 6 meses me despedindo do Rio, me despedi muitíssimo bem.

Mas estou morrendo de saudades de Nova Orleans, uma cidade que fiquei 6 meses conhecendo à distância e 2 semanas flanando pra conhecê-la pessoalmente.

Tenho saudade de todos aqueles lugares legais pelos quais passei e pensei: puxa, ainda vou vir muito aqui.

Como em qualquer final de casamento, sinto falta do futuro que teria, do futuro que me foi arrancado.

Mas vou recuperá-lo. Nova Orleans e eu ainda teremos nossa história de amor.

Sexta, 23 de Setembro de 2005

Badulaques e Coisinhas

O pessoal daqui (esses capitalistas imperialistas nojentos, como gosta de dizer os marxistas tomando chope no Baixo Leblon) tem sido de uma bondade absurda. Continuo recebendo ofertas de ajuda de todos os lados. É tanta ajuda que quase me sinto soterrado. Já não sei bem o que fazer.

Por um lado, eu não me sinto tão necessitado assim. O Oliver estando são e salvo, eu ainda mal consigo acreditar nisso, parece que todos os outros problemas são pequenos. Se perder alguma coisa, vão ser só (só!) objetos pessoais inestimáveis, mas não propriedade - casa, carro, eletrodomésticos, computador.

Por outro, eu sei que também me fudi. Todas essas idas e vindas pelo país custaram caro. Nesse meu primeiro mês de Estados Unidos, eu gastei os mil dólares que trouxe do Brasil, os 900 que recebi de Tulane e ainda me endividei em mais 700. E daqui a pouco vou ter que voltar pra Nola pra tentar resgatar o que sobrou e gastar ainda mais um pouco. Aqui, em Berkeley, só tenho casa porque estou alugando um porão por menos de um terço do valor de mercado.

Então, aceito a ajuda que me oferecem, mas não é fácil, apesar de tentador.

Recebi um cartão de estudante, que me dá direito, entre outras coisas, a tirar livros na biblioteca da universidade e de andar à vontade nos ônibus da cidade. Além disso, ganhei quase $300 em gift certificates da Levi's, GAP, Target (loja de departamento) e Longs (farmácia), pra ajudar a refazer o guarda-roupa e a despensa. E, melhor de tudo, me deixaram entrar no meal plan, ou seja, posso comer à vontade nos refeitórios de Berkeley.

Já é um desafogo de despesas.

* * *

Ontem, sonhei que estava no meu saudoso Renault (se eu tivesse carro em Nova Orleans, minha história teria sido muito diferente), vindo pela Radial Oeste e virando à esquerda na UERJ, depois de passar pelo Maracanã, pra entrar na Grajaú-Jacarepaguá, subir aquela linda serra e chegar em casa, onde o Oliver estaria me esperando.

Aí acordei e lembrei que não tenho carro, não tenho casa e tenho que lamber os beiços de ainda ter o Oliver.

* * *

Faz pouco mais de um mês que saí do Brasil. Talvez o mais difícil dessa história seja lembrar que não é uma viagem tumultuada mas divertida e que, daqui a pouco, eu vou voltar pro meu apartamento na Freguesia, pra minha cama de casal, minha mesa presidente, meus livros, meu microondas e minhas coisinhas em geral. Tudo como eu deixei no começo de agosto.

Tenho que me lembrar que minha casa agora é aqui. Onde quer que eu a estabeleça.

* * *

Quando saí do Rio, tive que deixar quase tudo pra trás. Dos meus milhares de livros, trouxe 49. Poucas roupas. Pouquíssimos objetos pessoais. Os poucos livros, roupas e objetos pessoais que eu trouxe foram aqueles dos quais realmente eu não poderia, não conseguiria me separar. A seleção foi cuidadosa.

Não é irônico pensar que, na prática, eu posso bem ter separado as minhas coisas mais importantes só para perdê-las

Pois as coisas que deixei pra trás, no Rio, ainda estão lá, seguras e inteiras, em um quartinho que aluguei. Já os meus tesouros mais preciosos, em Nova Orleans, podem já nem mais existir.

A raquete de ping-pong, absolutamente única e inestimável, que é do meu pai desde que ele era moleque, notas para romances e histórias que não tenho de cabeça, minha Bíblia do Jerusalém toda escritas nas margens.

Badulaques e coisinhas.

Quarta, 5 de Outubro de 2005

Pedido de Ajuda

Meu roommate deve voltar pra Nola no dia 11 ou 12 e está ameaçando jogar minhas coisas pela janela, a não ser que eu pague os aluguéis de setembro e outubro - ou seja, $800. Voltar de avião e pegar tudo sairia por cerca de $500, também caríssimo.

Idéias, sugestões?

Será que alguém em New Orleans se disporia a ir até a minha casa, catar as poucas coisas que eu tenho, colocar na mala que está no chão e, ou guardar a mala ou despachá-la pra mim? De qualquer modo, eu pagaria pelo trabalho, naturalmente.

É pouca coisa mas são justamente minhas coisinhas mais preciosas, aquelas das quais eu, ironicamente, não queria me separar de jeito nenhum, incluindo objetos pessoais, notas de romances, arquivos de computador e minhas bíblias.

HELP!!

Update

Não, eu acho que não devo mais nada. Fiquei lá só duas semanas, não faz sentido ficar pagando indefinidamente. Como está, já foram as duas semanas mais caras da história - $600.

A porta agora está aberta, qualquer um pode entrar antes dele chegar e pegar minhas coisas.

Ele também aluga a casa e está indo pra Nola justamente pra tirar as coisas dele lá de dentro e não precisar mais pagar aluguel. Disse ele que pagou setembro e outubro, mas não sei é verdade. Se pagou, é burro. Ninguém em Nola está pagando aluguel. Estão esperando baixar a poeira pra renegociar tudo com os proprietários.

Reparem que não quero roubar nem prejudicar o cara de modo nenhum. Quero apenas tirar minhas coisas de lá antes que ele chegue pra evitar bate-boca.

Sábado, 8 de Outubro de 2005

Últimas Pontas Soltas

Um outro professor do meu departamento em Tulane acabou de ligar, direto do meu quarto em Nova Orleans, onde está recolhendo minhas coisas. Agradecimentos ao Chris Dunn, dept chair, que arranjou o contato.

Um transferência de dinheiro que minha irmã fez pra minha conta em Nova Orleans no dia do furacão e que tinha se perdido no limbo bancário finalmente caiu essa semana. Já estávamos começando a ficar desesperados. Lendo as letrinhas miúdas, descobrimos que os bancos, desde que operem de "boa-fé", não se responsabilizam pela finalização bem-sucedida de tranferências financeiras - muito menos se o problema for causado por um "ato de deus".

O departamento de payroll de Tulane jurou que ontem, 7 de outubro, enviaram pra mim por correio os três cheques que estavam me devendo, o que quer dizer que vou poder pagar o empréstimo de $2,000 que fiz com UC Berkeley.

As coisas vão se resolvendo.

Domingo, 9 de Outubro de 2005

Cachorros Assassinados em Nova Orleans

Várias famílias de Nova Orleans se refugiaram em escolas, durante e logo após o Katrina. Quando foram evacuados pelo Exército, não puderam levar seus animais de estimação. Sem outra opção, prenderam os bichinhos nas salas de aula e, contando com a chegada dos pet rescuers, deixaram recados comoventes nos quadros-negros, dando seus dados e pedindo para tomarem conta de seus animais.

Poucos dias depois, em quatro dessas escolas, os pet rescuers encontraram 29 gatos e cachorros brutalmente fuzilados, as cápsulas vazias ainda espalhadas pelo chão, muitos alvejados pelas costas enquanto tentavam fugir e outros pela boca ou pelo ânus, com requintes de crueldade.

Acho que uma história dessas seria terrível pra qualquer um. Em mim, chega a dar enjôos e tonturas. Por muito pouco, não foi o Oliver. Eu ainda mal consigo acreditar no milagre que é ter ele aqui comigo.Cães e Gatos Assassinados em Nova Orleans

Dana Deutsch faz parte de um dos grupos de pet rescuers e ela documentou suas viagens à região, os animais resgatados e, o pior de tudo, as escolas onde os corpos foram encontrados.

A Pasado's Safe Heaven, organização de defesa dos animais, é a única a estar investigando esses crimes. Estão gastando $500 por autópsia de cada corpo e ainda realizando testes balísticos. Ofereceram recompensa de $10,000 por qualquer pista que leve aos criminosos. Como são um grupo pequeno, estão pedindo doações especialmente para essa investigação.

Você pode ler os últimos updates do caso e, se puder, faça uma doação.

Domingo, 16 de Outubro de 2005

Fotos do Resgate do Oliver

Oliver's Rescue / Resgate do Oliver

Eu tive que evacuar Nova Orleans no sábado, 27 de agosto, menos de duas semanas depois de me mudar pra cidade. Eu não conhecia ninguém, não tinha contatos, os ônibus e abrigos da universidade não aceitavam cachorros. Não tive opção a não ser deixar meu poodle, Oliver, que eu tinha acabado de trazer do Brasil, trancado dentro de casa e torcer pelo melhor.
Oliver's Rescue / Resgate do Oliver Oliver's Rescue / Resgate do Oliver
A medida que os dias iam passando, eu ficava cada vez mais desesperado. Parecia que não seria possível voltar para Nova Orleans tão cedo. Até os pet rescuers não estavam conseguindo entrar. Eu não conseguia parar de pensar no pobrezinho do Oliver morrendo de fome lá dentro.
Oliver's Rescue / Resgate do Oliver
Mobilizei o blog, os leitores do blog mobilizaram seus amigos, foram feitos posts e mais posts e, finalmente, um amigo de um amigo de um amigo, um fotográfo que foi pra Nova Orleans documentar os efeitos do furacão, conseguiu entrar em minha casa e salvar o Oliver. Ele tinha ficado preso lá dentro por nove dias, depois de enfrentar o pior furacão da história dos Estados Unidos - e ainda estava todo energético e ativo quando eles chegaram.

Oliver's Rescue / Resgate do OliverFoi um verdadeiro milagre. Cada vez que eu olho pra ele, cada vez que a gente brinca, cada vez que eu o acaricio, eu lembro de como passou perto. Milhares de bichinhos de Nova Orleans não tiveram tanta sorte e morreram de fome. Alguns foram fuzilados. Agora mesmo, os pet rescuers continuam seu trabalho, mas a maioria dos animais resgatados está fraca e agonizante.Minha Nova Casa

O nome do fotógrafo é Mark Gong. Suas fotos da destruição do Katrina estão aqui. O homem nas fotos é o amigo que o acompanhou a Nola - infelizmente, não sei seu nome. Reparem como o sem-vergonha do Oliver parece estar se divertindo.

Comparem as fotos acima, do resgate, em 5 de setembro, com essa aqui à direita, que tirei da minha casa em 13 de agosto - o dia em que cheguei em Nova Orleans, achando que era pra ficar.

Vejam também minhas fotos do Oliver, de Nova Orleans e do Katrina.

Mais uma vez, muito, muito obrigado a todos os que ajudaram, rezaram, comentaram, deram força e não me deixaram ficar nunca sozinho durante essa barra. Vocês são os melhores leitores do mundo.

Sexta, 21 de Outubro de 2005

Minha Casa

Essas fotos da minha casa foram tiradas no dia 8 de outubro, pela pessoa que foi lá buscar minhas coisas. Reparem o estado da rua e da fachada.
Em Frente a Minha Casa Porta da Minha Casa 2 Porta da Minha Casa

Duas organizações de resgates de animais passaram por lá. Uma no dia 30 de setembro e outra somente dois dias antes, em 6 de outubro. A primeira afirmou que o cachorro já não estava mais lá e a segunda, que encontrou um cachorro no porch - não sei que cachorro era, nem se foi levado.

Ou seja, se eu tivesse dependido dessas organizações, o Oliver só teria sido resgatado no dia 30 de setembro, mais de um mês depois do furacão. Será que ainda estaria vivo?

* * *

Reparem, na terceira foto acima, que um dos quadrados de vidro da porta estava quebrado e o Oliver estava louco pra fugir por ele. Então, eu tive que trançar um fio de plástico nas grades da porta de metal, tudo por causa desse bicho louco.

Na primeira foto abaixo, dá pra ver bem o buraco no vidro.

* * *

Três momentos da minha rua, 13 de agosto, 5 de setembro e 8 de outubro:

Minha Nova Casa Oliver's Rescue / Resgate do Oliver Em Frente a Minha Casa

Dois Ciganos

Eu e o Oliver chegamos nos Estados Unidos por Miami. Atravessamos a Florida inteira de carro, passamos pelo Alabama e pelo Mississipi, e chegamos em New Orleans, Louisiana.

Quando fui evacuado, eu fui até o Mississipi de ônibus e, de lá, peguei aviões para Detroit, Michigan; Jersey City, New Jersey e New York, New York. Depois de alguns dias em New York, eu peguei um avião, parei em Chicago, Illinois e vim acabar em San Francisco, California.

Enquanto isso, o Oliver foi resgatado pelo Mark e atravessou, de carro, os estados da Lousiana, Mississipi, Tennessee e Virginia e chegou na capital, Washington, DC. Então, pegou um avião, fez uma parada em Houston, Texas e finalmente aterrisou aqui em San Francisco, California.

Por fim, minhas coisas foram resgatadas de New Orleans por um colega de Tulane, que colocou tudo no carro, cruzou a Lousiana e o Texas (que é absurdamente grande) até Austin, de onde foram enviadas pra mim.

A ruiva disse que vai mandar uns lenços vermelhos e argolas pro Oliver e pra mim. Somos dois ciganos.

Sábado, 29 de Outubro de 2005

Minhas Coisas Resgatadas

Ontem, finalmente, não apenas recebi meu primeiro cheque de Tulane como também chegaram as minhas coisinhas pessoais que o meu santo amigo (que eu nem conheço) salvou da minha casa em Nola.

Para os leitores voyeurs (minha irmã fala que vocês acompanham a minha vida como se fosse o Big Brother), cliquem nas imagens abaixo e leiam nas notas a minha descrição de cada objeto.

São todas besteirinhas, mas são as minhas besteirinhas. Quando saí do Rio e tive que me desfazer de quase tudo, essas foram aquelas coisas das quais eu não quis me separar. A minha casa, pensei, é onde estão essas coisinhas.

Minhas Coisas Minhas Coisas Minhas Coisas Minhas Coisas

Ficou faltando: um urso e um macaco de pelúcia, presentes de duas grandes amigas, e um button, presente na Bel, que estava preso ao macaco (devem estar junto com a minha roupa, que ficou em Nola, na casa do vizinho); minha roupa de cama e banho com minhas iniciais bordadas e um pendurador de bananas, presentes da minha mãe, que não sei se foram guardados junto com as roupas; uma caneca de "Eu (coração) Rio", lembrança de um dia muito especial de turismo na minha cidade, que ficou na cozinha; um mapa do Rio em alto relevo e um poster da primeira exposição de Arte Naif, pré-lançamento do museu, que ficaram na parede; e um presentinho da ruiva que deve ter sido embalado junto com as roupas.

Os posteres da parede, as coisas na cozinha e as toalhas no banheiro eu acho que não vejo mais.

Quinta, 3 de Novembro de 2005

Cachorros Resgatados e Depois Abandonados

Dana Kay revela mais fotos de suas viagens de pet rescuing em Nova Orleans. Ela disse ter visto, em muitas casas, marcas como as das casa abaixo: mostrando que os animais tinham sido "resgatados" por um grupo, que entrou na casa e lhes deu água e comida, mas os deixou lá, por algum motivo, e depois foram encontrados mortos por outro grupo.



As letras DOA significam Dead on Arrival, ou seja, que os animais na casa já estavam mortos quando foram encontrados.

Cara, depois de ver essas fotos eu chorei tanto, agarrei o Oliver tanto, vocês não imaginam.

Sexta, 11 de Novembro de 2005

O Mais Bem-Sucedido Experimento em Prevenção de Crimes da História

Nova Orleans era uma das cidades mais violentas dos Estados Unidos. Entretanto, o último homicídio na cidade aconteceu no dia 27 de agosto. De lá pra cá, nada.

Do New York Times de ontem:
There is no precise precedent for this transformation in the crime rate, law enforcement officials and academic experts say. While the few residents who have returned are holding their breath to see how long it lasts, the sudden change has become a subject of intense interest for those who study crime.

"This is one of the most interesting experiments in crime we've ever seen," Mr. Scharf said. "Without effective courts, corrections or rehabilitation, we have reduced the crime rate by 100 percent."

Hurricane Katrina, Mr. Scharf continued, "was one of the greatest crime-control tools ever deployed against a high-crime city."

Before the storm, New Orleans was reeling, with a daily round of killings and gunfire as bad as any in the city's history; Mr. Scharf projected that without the hurricane there would have been 316 killings there in 2005.

Domingo, 13 de Novembro de 2005

Diáspora

A evacuação de Nova Orleans causou uma das maiores diásporas da história ocidental. Quase um milhão de pessoas se espalhou pelo país e pelo mundo. Eu e o Oliver inclusive.

Os jovens de hoje em dia estão tão acostumados à existência de Israel que se esquecem que, durante quase dois mil anos, os judeus andaram pelo mundo sem pátria. Naquela época, quando dois judeus se despediam um do outro, era comum dizerem: "ano que vem, em Jerusalém!" Ou seja, tomara que ano que vem recuperemos nossa pátria e, então, todos nos encontraremos lá.

E eu acho graça pois já perdi a conta de quantos "ano que vem, em Nova Orleans" eu já ouvi - de gente que não conhecia essa frase dos judeus, claro. De certo modo, parece a melhor coisa a se dizer no fim da conversa.

Definitivamente, diáspora é tudo igual.

Segunda, 14 de Novembro de 2005

Housing in New Orleans

Atualmente, minha maior preocupação para o ano que vem é: onde morar em uma cidade em que as casas que não foram destruídas estão mofadas E mais caras que o normal?

Tulane, em uma jogada ousada pra solucionar o problema, fretou dois navios de cruzeiro, que ficarão ancorados no porto, com um serviço de shuttle para a universidade. O preço das cabines será o mesmo dos dormitórios.

Eu achei genial. Mas não resolve meu problema. E o Oliver?

Quarta, 23 de Novembro de 2005

Saber a Hora de Parar

Algumas notícias sobre Nova Orleans falam de solo contaminado por metais pesados e muitas doenças respiratórias em cães e gatos. Entrei em um fórum sobre animais de estimação em Nola para me informar.

Atualmente, de acordo com os membros do fórum, o maior perigo não é nenhum desses. São os pet rescuers.

Como assim?, perguntei. Os santos pet rescuers?

Sim, os santos pet rescuers.

O cidadão sai pra trabalhar, deixa seu cachorro em casa e, quando volta, a sociedade protetora dos animais já arrombou sua porta e resgatou o bicho! E haja trabalho pra recuperá-lo depois.

A vida é uma piada.

Segunda, 5 de Dezembro de 2005

Recebi $2,538 do Tio Sam

A FEMA (a agência governamental mais desorganizada dos EUA) acabou de me mandar um cheque de $2,538 dólares, para cobrir despesas extras de aluguel e deslocamento pós-Katrina. Acontece que, segundo eles, eu não tenho direito a esse benefício, por não ser cidadão.

As informações sobre o assunto são totalmente desencontradas.

Junto com o cheque, eu tenho que devolver um formulário no qual eu digo se sou ou não cidadão. Eles avisam que não enviar o formulário preenchido pode fazer com que eu tenha que devolver o dinheiro. Presumivelmente, enviar o formulário preenchido dizendo que eu não sou cidadão com certeza vai fazer com que eu tenha que devolver o dinheiro.

No fórum para alunos estrangeiros de Tulane, cada um conta uma história diferente. Muitos tentaram devolver os cheques e não sabiam a quem, ou têm medo de devolver, pois os cheques cairiam no buraco negro da desorganização da FEMA e poderiam ter que devolver o dinheiro de novo!

Muitos foram informados pela própria Fema, por telefone, que F1s e J1s tinham direito ao dinheiro. Outros F1s e J1s foram informados para se dizer Qualified Alien no tal formulário pós-cheque, mas o site da FEMA diz explicitamente que Qualified Alien é somente quem tem green card ou status de refugiado ou asilado.

Basicamente, isso vai dar dor-de-cabeça.

O site da FEMA contém diversos avisos alertando contra os perigos legais de tentar obter esses auxílios financeiros sob falsos pretextos. Quanto a isso, estou com a consciência limpa. Na verdade, eu só entrei em contato com a agência porque, para poder receber alguns auxílios de Tulane, os alunos precisam ser registrados na FEMA.

As informações que forneci foram rigorosamente verdadeiras. Quando em dúvida, errei pra baixo. Disse que não tinha perdido absolutamente nada. Fiquei até surpreso de saber que a FEMA não cobre perdas físicas. Se você tinha seguro, o seguro paga. Se não tinha, deveria ter. O dinheiro da FEMA, via de regra, é para cobrir despesas com transporte e aluguel - que foram, claro, as minhas duas grandes despesas.

Então, considerando tudo isso, minhas opções são:

1) Tentar devolver o cheque voluntariamente.

Difícil. Não confio na FEMA. Eles nem deviam ter me mandado esse cheque. Essa porra pode acabar sumindo.

2) Guardar o cheque e esperar.

Perigoso. O cheque pode ser sustado ou perdido e eles, ainda assim, podem querer o dinheiro de volta. Aí eu fodo dobrado.

3) Depositar o cheque e esperar.

Provavelmente, a opção mais segura. Agi de boa-fé, não menti. Vou considerar o cheque um empréstimo a juro zero do governo americano pra me ajudar a reerguer. Não vou fugir da FEMA. Eles têm todos os meus dados. Se e quando pedirem o dinheiro de volta, eu devolvo. Provavelmente, vai dar até pra parcelar. E, se pedirem, é porque sentiram falta do dinheiro e ele não vai cair no limbo quando chegar lá.

Eu poderia também não devolver o formulário pós-cheque em que afirmo não ser nem cidadão nem qualified alien. Aparentemente, não tenho obrigação legal de preencher esse formulário. Segundo a carta anexa, se eu não preenchê-lo, eu não vou receber nenhuma ajuda adicional e posso (may) ter que devolver o dinheiro. Só.

Por outro lado, se essa história der merda no futuro, podem qualificar isso de má-fé.

Dado que a FEMA é uma zona completa, acho que o mais seguro é depositar o cheque (que é meu, está nominal a mim e me pertence), obeceder a todas as instruções (preencher e devolver o formulário pós-cheque, por exemplo) e aguardar algum novo contato.

Alguém sabe mais? HEEEELP!

Quinta, 10 de Janeiro de 2006

A Vítima Profissional

As Ajudas que Recebi

Eu saí de casa faz quatro meses e meio achando que iria passar dois dias fora. Ainda não voltei. Aliás, para aquela casa especificamente, jamais voltarei.

Nesse meio tempo, passei por sete estados norte-americanos, dormi na casa de três pessoas e repeti muitas vezes a mesma cueca.

Por todo esse caminho, fui ajudado de todos os jeitos que uma pessoa pode ser ajudada. Como disse minha irmã, cheia de ironia, só faltou as alunas da universidade se cotizarem pra dar pros pobres refugiados do Katrina. Conhecendo Berkeley, deve ter faltado pouco. Ou então, vai ver fui eu que não recebi o email.

A Universidade da Califórnia em Berkeley, uma das melhores do mundo, aceitou a mim e a outros 250 estudantes sem processo de seleção algum. Fiquei feliz de ter tirado notas boas, para mostrar que não apostaram no cavalo errado.

Da universidade, eu ganhei comida (quantas refeições quisesse nos refeitórios mais $1,300 nos restaurantes do campus), livros, roupas e material escolar ($1,000 na loja da universidade), certificados para usar em lojas ($150 na Gap, $100 na Target, $100 na Longs, $75 na Levi 's), passagem de volta (certificado de $300 na Southwest), empréstimo imediato e sem juros de $2,000 (já paguei), atendimento médico, jurídico, oftalmológico gratuito (não usei), membership da academia (não usei, *suspiro*). Tirando o empréstimo, ninguém me deu dinheiro da mão: foi tudo por meio de vales.

Teriam me arranjado um lugar pra ficar, se eu já não tivesse encontrado uma família maravilhosa que me hospedou, com quem passei o thanksgiving e natal e para quem só estou pagando um quarto do valor de mercado pelo meu apartamento de três quartos porque insisti.

Enquanto isso, o Oliver foi atendido de graça pela associação protetora dos animais local e a empresa telefônica me deu uma linha subsiada para vítimas de desgraça (se chama LifeLine) e me liberaram de pagar a taxa de $200 pelo cancelamento da linha, agora que estou indo embora. Até o cara da melhor pizzaria do mundo me deu uma pizza de graça quando eu disse, com lágrimas nos olhos e com toda a minha sinceridade, que o Cheeseboard seria a coisa que eu mais sentiria falta em Nova Orleans.

No Brasil, um amigo assumiu um frila que eu estava fazendo, fez tudo a contento do cliente e se recusou a receber uma parte.

A pedido de uma completa estranha, um completo estranho resgatou meu cachorro e dirigiu meio país com ele desesperado no carro - o maior favor que alguém já me fez, um verdadeiro milagre pelo qual eu não páro de agradecer todos os dias. Outro completo estranho resgatou boa parte das minhas coisas, me mandou meus papéis e CDs pelo correio e deu minhas roupas e livros para outra completa estranha guardar. E uma outra completa estranha resgatou os papéis vitiais que o primeiro completo estranho não viu e me mandou.

Uma de minhas melhores amigas, quando soube que estava no abrigo de Mississippi, me chamou pra ficar na casa dela, em Nova Iorque, e pagou minha passagem. Minha irmã me recebeu de braços abertos na Califórnia e fez as primeiras gestões em relação à minha permanência na universidade. Depois do resgate, o Oliver ficou hospedado na casa dos sogros de uma amiga e foi transportado de graça pela Continental até a Califórnia.

Quando liguei pra minha ex-esposa, no Timor, pra dizer que tinha sido obrigado a deixar nosso cachorro querido pra encarar sozinho um dos piores furacões de todos os tempos, o nosso cachorro que ela ama tanto quanto eu, o cachorro que eu trouxe desde o Brasil, eu estava talvez no momento mais baixo e vulnerável da minha vida, me sentindo o último dos homens, bem longe do penúltimo, e se ela tivesse dito um "ai" que seja, e ela teria todo o direito, acho que eu teria cometido haraquiri na hora, mas ela ficou do meu lado do começo ao fim e foi a pessoa mais maravilhosa e supportive que eu poderia imaginar.

Tive somente um único dissabor. Uma pessoa que eu julgava amiga próxima se aproveitou desse meu momento de maior fraqueza pra me chutar enquanto eu estava no chão, e só esse chute, infinitamente cruel, calculadamente pérfido, doeu mais do que todas as provocações e insultos de gente que eu não conhecia e para quem eu não ligava e não ligo. Dela eu gostava muito. Nessas horas, a gente conhece as pessoas.

Por outro lado, gente positivamente filha da puta e mau-caráter me ajudou de forma inesperada e, mesmo com vontade de mandá-los à merda, aceitei e agradeci de todo coração. Hoje, continuo achando que são filhos da puta e mau-caráter (Hitler também adorava cachorros e era amado por todo seu staff mais próximo, e daí?), mas me ajudaram quando mais precisei e estou em dívida com eles.

Não acredito em respeito às leis, em contribuir para a sociedade ou em contrato social mas, de um modo bem primitivo, acho que honra e lealdade são tudo. Sei bem quais são minhas dívidas e levo todas muito a sério. Mas é duro estar em dívida com gente mau-caráter.

Aprendi muito. Sobre o mundo. Sobre as pessoas. Sobre os Estados Unidos. Sobre mim mesmo. Sobre a generosidade, bondade, humildade, gratidão.

Nunca fui tão ajudado.

Em Nova Orleans, com certeza, tudo vai mudar. Lá, todo mundo é vítima do Katrina. Vai ser o fim dessa sopa.

Mal posso esperar.

Saber Ser Vítima

Ando lendo vários blogs de Nova Orleans, mantidos tanto por gente que está lá quanto por refugiados como eu.

Um tema comum é que o resto dos EUA já se encheu o saco dos refugiados do Katrina. Por todo o país, as pessoas que tão bem acolheram os refugiados em um primeiro momento agora estão dando tapinhas delicados em seus relógios: o quê?, você ainda está aí?, quando vai voltar pra casa?

Os blogueiros acham que a raiz do problema é que os refugiados não sabem agir como vítimas. Quiseram agir como pessoas normais, mas um refugiado não é uma pessoa normal: ele é uma vítima e tem que se comportar como tal. Humilde, agradecido, bem-comportado.

Rapaz, sei exatamente do que estão falando.

Por um lado, tenho sorte. Não duvido se a Bay Area for a área mais generosa dos Estados Unidos - uma combinação de ser muito progressive/liberal com ser muito, muito rica. Aqui ninguém me olhou feio por ser refugiado do Katrina. Pelo contrário, ganho pontos em qualquer transação quando menciono isso.

Mas, também, claro, eu sei ser uma vítima profissional.

Quero Voltar a Ser Eu Mesmo!

Ser uma vítima profissional não quer dizer, de modo algum, mentir, ser falso ou ser hipócrita. Eu não sei fazer nenhuma dessas coisas.

Mas quer dizer, simplesmente, ser mais abjetamente humilde do que você normalmente seria, saber a hora e como pedir, ser exageradamente agradecido, dizer que tudo está sempre ótimo e supimpa, e nunca, sob hipótese alguma, reclamar ou ser inconveniente.

E, olha, eu vou dizer uma coisa: aguentei a barra esse tempo todo. Meu comportamento foi impecável. Vesti essa persona e levei-a comigo por todos os lados.

Mas cansa. Cansa muito.

O peso psicológico é enorme, ainda mais pra um cara rebelde como eu, acostumado a sempre fazer o que bem entende e foda-se. Senti nas minhas costas todo o fardo do mal estar da civilização.

Nunca me humilhei tanto. Nunca me reprimi tanto. Nunca engoli tantas palavras, pedidos, reclamações, ironias, inconveniências. Devo ter começado a alimentar um pequeno câncer.

Eu sou soberbo e orgulhoso, inconveniente e reclamão.

Quero não mais precisar ser tão agradecido por tudo. Quero poder reclamar da comida e do encanamento. Quero ter direito de achar que não está tudo bem. Quero deixar de ser vítima.

Quero voltar a ser eu mesmo!

UPDATE

Pergunta de uma amiga no MSN:
Mas você não sente gratidão naturalmente?
Ora, claro que sinto. Muita. Nunca fui tão grato em minha vida. Mas ser vítima profissional quer dizer ser excessivamente grato.
E você acha que é isso mesmo que as pessoas querem?
Eu sei que é isso que as pessoas querem. Sempre soube. A diferença é que agora eu sei por experiência própria.

Ou você nunca viu alguém oferecer alguma comida pra um mendigo, ele recusar ou dizer que não gosta daquilo, e a pessoa ficar revoltada? Ele mora na rua, está pedindo esmola, estou querendo dar o resto do meu Big Mac pra ele, como ele ousa dizer que não gosta de Big Mac?!

Não acho que sejam pessoas ruins: nem a que tentou dar o Big Mac nem o que recusou. A natureza humana é assim.

Só porque o cara está precisando de ajuda, ele automaticamente tem obrigação de aceitar qualquer ajuda que você filantropicamente lhe ofereça. Se não aceitar, é porque é um ingrato filha da puta e você, claro, que tem auto-estima, não vai mais ajudar um canalha desses.

Vejam bem. Ser vítima profissional não quer dizer ser hipócrita ou ingrato.

Na verdade, é mais como ser extremamente bem educado, ao ponto de tornar-se abjetamente humilde.

Sábado, 21 de Janeiro de 2006

Mortos e Desaparecidos em Nova Orleans

Oficialmente, foram 1.383 os mortos do Katrina - sem contar os mais de 100 mil animais de estimação mortos.

Mas, agora, quase cinco meses depois, as autoridades finalmente divulgaram a lista dos desaparecidos: mais de 3.200 pessoas. Embora alguns possam estar vivos e deslocados, quase todo mundo que não está fugindo de alguém já deu sinal de vida. Estima-se que grande parte desses 3.200 estejam mortos e que seus corpos estejam ou ainda sob os escombros, ou que tenham sido levados para o rio, lago ou pântano.

Parece pouco comparado com o Tsunami, mas é bem mais do que o 11/9.

* * *

Eu e Oliver chegaremos em Nola na terça, 24 de janeiro. Já me voluntariei na Sociedade Protetora dos Animais da Louisiana. Não esqueço minhas promessas.

Sexta, 17 de Março de 2006

Memórias do Furacão

Jackson State Univ ShelterJá aconteceu duas vezes. Eu cruzo com alguém no campus e penso: conheço esse cara de algum lugar. Forço a memória e lá vem: é mesmo, evacuamos juntos para o abrigo em Mississippi (ao lado).

Seis meses depois, eu confesso que pela primeira vez estou começando a achar ligeiramente (charmoso? interessante? não sei bem) pensar que fiz parte da maior evacuação de todos os tempos, que eu e mais um milhão de pessoas fomos evacuados simultanea e obrigatoriamente de uma grande metrópole ocidental, que nos espalhamos por todo o país (a eleição para prefeito é mês que vem e têm mais eleitores fora da cidade do que dentro), que a cidade foi posteriormente quase destruída mas que, mesmo assim, entre mortos e feridos, estamos aqui agora tocando nossas vidas de novo.

O primeiro ano em um novo país é sempre agitado e cheio de desafios. Eu, que conhecia bem os Estados Unidos, nunca imaginaria que meu primeiro ano aqui seria tão repleto de aventuras e surpresas.

Gostou desse texto? Ele resolveu sua dúvida? Ajudou em sua busca? Acrescentou algo à sua vida? Dê um presente a um autor falido e permita que ele continue escrevendo na Internet: Lista de Presentes Liberal Libertário Libertino

 

Mais Crônicas

Eu, o Oliver e a Katrina 
Em agosto de 2005, eu e o Oliver fomos pegos no meio do furacão Katrina, em Nova Orleans, o pior desastre natural da história dos Estados Unidos. Reuni nesse artigo todas as nossas peripécias.

Dia de Todos os Santos 
Alguns dias merecem ser contados, tanto pelo que têm de ordinário quanto de extraordinário.

Eu Sou Livre!
Sou livre. Estou no auge de minha forma física e mental e sou livre como nunca fui. Livre como talvez nunca vou ser. Mais livre do que a maioria das pessoas que conheço jamais será.

Alexandre Cruz Almeida Agora É Alex Castro 
A partir de hoje, não existe mais Alexandre Cruz Almeida. Passo a atender pelo nome de Alex Castro.

Os Carros do Meu Pai  
Acho difícil de um jovem hoje conceber o quanto uma Porshe 928 chamava a atenção no Rio de 1983. Hoje, ainda chamaria atenção, e olha que temos trocentos carros importados em circulação, de todos os tipos e modelos.

Em Defesa dos Sentidos 
A supervalorização da visão levou o Ocidente a uma vida sensorial extremamente pobre. A maioria das pessoas que conheço, por exemplo, é tristemente incapaz de sentir a maioria dos cheiros. Defender uma revalorização dos outros quatro sentidos será sempre uma de minhas bandeiras principais.

Ataques de Entendimento 
Acordo de madrugada, de repente no trânsito, no meio de um jantar chato, e começo a me auto-flagelar: por quê? O que eu poderia ter feito de diferente? Foi minha culpa? Onde foi que eu errei? Quero entender. Preciso entender. Uma necessidade doentia de entender ferve dentro com a intensidade da vontade de beber em um alcoólatra.

Meus 18 Anos
Um leitor, de 18 anos, me mandou o seguinte email: "Queria saber como foram os teus 18 anos. O que tu pensava da vida, o que fazia, tua vida social..." Achei engraçado tentar lembrar dos meus 18 anos.

Eu Já    
Eu já andei muito de limusine. Eu já salvei a vida de dois atropelados com primeiros-socorros. Eu já me recusei a sair com uma mulher de quem eu estava muito a fim só porque ela insistia em comer meu cu com um consolo. Eu já roubei gorjeta de garçom.

Será A Minha Vida Mais Interessante Que A De Vocês? 
Não é que minha vida é mais insólita do que as outras, mas talvez somente eu esteja mais aberto para o insólito em minha vida.

As God Is My Witness, I'll Never Wear Those Shoes!    
Aquele mocassim é o símbolo do ponto mais baixo que cogitei descer. E não desci. Por decisão consciente, não desci. Por força de caráter, não desci. Do momento em que descalcei aquele sapato em diante, minha vida só fez melhorar.

Meu Casamento em Datas 
6 de dezembro de 2000. Nosso primeiro encontro, totalmente por acaso. Menos cinco minutos, mais cinco minutos, um filme mais interessante na televisão, e jamais teríamos nos conhecido. Contei uma versão diferente do nosso primeiro encontro para cada pessoa. A versão verdadeira é só nossa.

Mal de Alex Castro 
Essas doenças que têm nomes de pessoas, Alzheimer, Parkinson, Chagas, quem lhes deu esses nomes? Não é sinistro ter seu nome eternamente vinculado a doenças tão horríveis? Será que tinham alguma idéia da carga de energia negativa quer iriam atrair sobre sua posteridade?

Ruminações sobre Angústia, Beleza & Microfama    
O momento em que me senti realmente apartado de minha ex-mulher, um daqueles momentos pequenos que só parecem cheios de significado olhando em hindsight, foi quando assistimos Encontros e Desencontros, de Sophia Copolla, com Bill Murray.

Microbiografia    
Como parte do meu processo de candidatura ao mestrado em Português em Tulane University, eu tive que escrever uma microbiografia, em até três páginas, contando sucintamente quem eu sou e porque acho que deveriam me aceitar.

Gente que Sabe o Seu Lugar     
Uma amiga, descrevendo as virtudes do seu motorista: "Ele é ótimo. Sempre o chamamos para almoçar na mesa com a gente, mas ele se recusa, vai comer na cozinha. Sabe o seu lugar."

A Alegria Alheia 
Custava alguém ter retribuído o seu olhar? Sorrido de volta? Dado qualquer indicação de que estava ouvindo? Nenhum de nós merecia a alegria daquele velhinho àquela hora da manhã.

Cozinhando com Alex  
Não entendo gente que não sabe cozinhar. Entendo gente que não gosta de cozinhar, claro. Tem gosto pra tudo. Tem gente que não gosta de mulher. Tudo é possível. Mas como não "saber" cozinhar?

Belmiro de Almeida   
Belmiro de Almeida é meu pintor favorito. Cada um de seus quadros conta uma história com começo, meio e fim.

Fantasmas de Felicidades Passadas
A felicidade pode existir no presente. No futuro, ela é um engodo. No passado, quase sempre uma aflição.

Reminiscências de Ex-Rico
Minha mãe está leiloando a mesa onde dávamos jantares à francesa, completa, com aparelho de jantar de porcelana de sèvres pintada à mão (com direito até à marcadores de lugar), fruteira de metal, candelabros, saleiro e faqueiro de prata, copos e garrafas de cristal baccarat, todos os fru-frus possíveis e imaginários.

Minha Personal Stalker 
Tentei não olhar pra ela, pra não piorar a situação, mas via o carro pelo reflexo das vitrines. Entrei em duas galerias e perguntei: "Estou sendo seguido por uma louca, essa galeria tem alguma saída dos fundos?" Como estamos no Rio, ninguém estranhou.

Conversas a Esmo 
Se não tenho assunto, vou querer escrever pra quê? Vou é andar ao sol, ler um livro, dormir, qualquer coisa menos encarar a folha branca. Então, se não tenho assunto, vou querer conversar pra quê? Sobre o quê?

Gaiatos, Inc. 
Kafka já dizia que contra uma piada não há argumentos. É impossível se defender de zoação. Você fica calado e espera passar. Mas, quase sempre, essas grandes empresas são zoadas porque querem, porque deram abertura. Ou melhor, porque não receberam assessoria humorística apropriada.

O Mala Que Sabe o Preço de Tudo 
Você pede um sanduíche de filé de frango e o mala que sabe o preço de tudo grita: sete reais?! Que absurdo! Com esse dinheiro, eu compro um quilo de filé de peito!

Não Haverá Outro Dia 
O sol não vai mais nascer na vida de nenhum de nós. Quando a gente olha no relógio da vida e vê que está ficando tarde, a hora é de correr, não de deixar pra depois. O que não fizermos hoje, amanhã fica mais difícil, depois de amanhã talvez impossível.

O Peso de Um Segredo    
Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.

Vergonha da Faxineira 
Na véspera da faxineira chegar, minha mulher passa o dia inteiro limpando tudo e a casa fica um brinco. Não entendo nada: mas criatura, não concordamos em chamar a faxineira justamente porque não tínhamos como dar conta disso?!

Você Se Acha Muito Inteligente, Não É?    
Todo jornalista que se preze deveria ter um cachorro em casa para poder ver concretamente (ver e cheirar, claro) qual é o destino inevitável de tudo o que escrevemos.

Meus Trinta Anos 
E aprenda que os homens devem ter sempre em mente a morte, e que nenhum pode ser considerado feliz até o dia em que leve sua felicidade para o túmulo em paz.

Trago Pessoa Amada em Três Dias 
Para cada pessoa que manda trazer seu amado existe (teoricamente) um amado relutante que queria apenas prosseguir com a sua vida.

Mas Que Calor, Hein?    
Aguardo ansioso o dia em que o meteorologista vai dizer: "Gente, excelentes notícias: amanhã, tempo bom em toda cidade. Isso mesmo que vocês ouviram, tempo bom: nuvens esparsas, leve brisa, queda de 10 graus na temperatura e ainda aquela chuvinha refrescante no fim da tarde."

Sou Janela, Não Pedra    
O longo artigo sobre a Escola Urbana foi a última vez em que falei mal de alguns de meus colegas.

Quem Tem Medo do Alexandre?     
Quem se propõe a ser jogador profissional de futebol, tem que estar pronto pra encarar o Ronaldinho. Quem se propõe a ser escritor de ficção, tem que estar pronto pra encarar Machado de Assis.

Meu Primeiro Dinheiro 
O primeiro dinheiro que ganhei na vida foram os 60 dólares de prêmio do Primeiro Concurso de Contos da Hebráica Rio, categoria infanto-juvenil, em outubro de 1988. Eu tinha 14 anos.

O Ônus de Lembrar 
Eu sempre me esqueço de trazer as coisas que deveria, eu sempre faço essa proposta de transferir o ônus de lembrar para a parte interessada e sempre me deparo com a mesma reação: ah não, esse ônus eu não quero, quero só o livro, você que se lembre.

O Aventureiro no Penhasco   
Às vezes eu me sinto como um daqueles aventureiros que atravessou um penhasco se equilibrando numa corda e agora fica lá do outro lado só gritando, vem gente, vem que é fácil, e se admirando de ver as pessoas tentando segui-lo e caindo. Eu não devo ser seguido. Talvez eu nem mesmo possa ser seguido. Talvez o meu caminho seja só meu.

Minha Primeira Vez   
Hoje, faz dez anos que Clarice, a malvadinha, me descabaçou. Eu, 19, virgem, ela, 17, sexualmente ativa há quatro. Estávamos saindo há cerca de três semanas. Ela me liga uma noite e diz que vai matar aula no dia seguinte pra passar a manhã comigo.

Liberal Libertário Libertino: Modo de Usar   
O leitor Hugo está resenhando minhas prisões em seu blog, Alta Fidelidade. Ele seleciona os trechos mais relevantes e os responde. O Hugo está, antes de tudo, se conhecendo. Não há viagem mais importante do que essa. Ao reagir a mim, ele está descobrindo seus limites, seus preconceitos, suas opções.